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José de Felippe Junior
Trabalhos epidemiológicos comprovam que a prática de exercício regular confere proteção contra a maioria das causas de mortalidade. A proteção é particularmente eficaz contra a aterosclerose, o diabetes tipo 2, o câncer de colon , o câncer de mama, a coronariopatia, a insuficiência cardíaca e a doença pulmonar obstrutiva crônica (Blair – 2001 , Jollife-2000 , Piepoli – 2004 , Boule – 2001 , Lacasse - 2002). Todas essas doenças têm sido associadas á presença de inflamação crônica subclínica com aumento de duas a três vezes nos níveis de várias citocinas: TNF-alfa , IL-1 beta , e IL-6 e ao aumento da Proteína C-Reativa.
O tecido adiposo contribui para a produção de TNF-alfa o qual aumenta a IL-6 e a Proteína C Reativa. Possivelmente o TNF-alfa mais do que a IL-6 provoque a resistência á insulina e a dislipemia e a IL-6 é mais um marcador da síndrome metabólica do que a sua causa.
Importante frisar que durante o exercício a IL-6 é produzida pelas fibras musculares através de uma via independente do TNF-alfa. A IL-6 estimula o aparecimento na circulação de outras citocinas antiinflamatórias , tais como a IL-1ra e a IL-10 e inibe a produção da TNF-alfa que é uma citocina proinflamatoria. A IL-6 também promove a estimulação da lipólise e a queima das gorduras por oxidação .
Petersen sugere que o exercício regular induz a supressão do TNF-alfa e portanto confere proteção contra a resistência á insulina provocada por esta citocina.( Petersen – 2005).
Recentemente a IL-6 foi considerada como a primeira “miocina” ou “miokina” , definida como uma citocina que é produzida e liberada durante a contração das fibras musculares e que exerce efeitos benéficos á distância em vários órgãos do nosso corpo.
Possivelmente a miocina seja a responsável pelos efeitos benéficos do exercício , promovendo a diminuição da inflamação crônica subclínica , que é o mecanismo intermediário de inúmeras doenças.
Resposta da IL-6 ao Exercício
Vários autores encontraram marcante aumento dos níveis circulantes de IL-6 após o exercício sem lesão muscular ( Castell-1997 , Drenth – 1995 , Ostrowski – 1998 –1999-2000 , Starkie – 2001 , Steensberg – 2001 ) . O aumento da IL-6 com o exercício é exponencial e está relacionado com a intensidade, a duração, a massa muscular recrutada e a capacidade de ‘endurance’ do exercício ( Febbraio- 2003 , Pedersen – 2000-2001-2003).
O exercício promove o aumento da IL-6 mRNA no músculo esquelético que está contraindo e conseqüentemente a velocidade de transcrição do gene IL-6 é marcantemente aumentada com o exercício ( Keller- 2001). O TNF-alfa não é liberado durante o exercício (Steenberg – 2002).
Foi constatado que mesmo os exercícios moderados provocam grandes afeitos na geração de IL-6 muscular. Jovens saudáveis com 3 horas de exercício à 50% da sua capacidade máxima ( freqüência cardíaca de 113 a 122 batimentos /minuto) apresentam aumento de 16 vezes do IL-6 mRNA e 20 vezes IL-6 circulante. Com a mesma intensidade de exercício agora aplicada a idosos saudáveis obtém-se até maiores níveis de liberação de IL-6 muscular (Pedersen – 2004).
É muito importante frisar e divulgar em alto e bom som que a suplementação com vitamina C (500mg ao dia) junto com a vitamina E (400UI ao dia) inibe a liberação da IL-6 muscular ( Fischer – 2004) e portanto inibe a maioria dos efeitos benéficos dos exercícios.
Vários estudos mostraram que a ingestão de carboidratos atenua a elevação da IL-6 durante a corrida ou o ciclismo. Durante o exercício a ingestão de carboidrato exerce seu efeito nos níveis póstranscripcionais da IL-6 , enquanto a baixa concentração de glicogênio muscular aumenta o IL-6 mRNA e a velocidade de transcrição do IL-6 ( Febbraio - -2003).
Durante o exercício outros órgãos contribuem de uma maneira modesta para o aumento da IL-6 : tecido adiposo, tecido ao redor dos tendões e cérebro.
Efeitos antiinflamatórios do IL-6
A IL-6 inibe a produção de TNF-alfa e de IL-1. Ela também inibe a produção de TNF-alfa induzida pelo lipopolisacaride em cultura de monócitos humanos (Schindler – 1990).
Os efeitos antiinflamatório da IL-6 são verificados pelo fato desta citocina estimular a produção de IL-1ra , de IL-10 e de cortisol em humanos (Steensberg – 2002). Acresçe que a IL-6 estimula a liberação de receptores solúveis do TNF-alfa e parece que ela é o indutor primário das proteínas de fase aguda geradas nos hepatócitos.
Efeitos antiinflamatórios da IL-10 , IL-1ra e Proteína C Reativa (PCR)
O aparecimento da IL-10 e da IL-1ra na circulação durante o exercício também contribui para os efeitos antiinflamatórios do exercício.
A IL-10 inibe a produção de IL-1alfa , IL-1beta e de TNF-alfa assim como a produção de IL-8 e da proteína-alfa derivada do macrófago ativado.
A IL-1ra inibe a transdução de sinal através do receptor IL-1alfa. A IL-1ra pertence à família das IL-1 que se liga aos receptores IL-1 , entretanto elas não induzem qualquer resposta intracelular. Talvez o IL-1ra funcione como proteína de fase aguda.
A Proteína C Reativa aumenta levemente durante o exercício e induz a produção de IL-1beta e de IL-1ra pelos monócitos do sangue e inibe a produção de IL-1beta e de IL-1ra pelos macrófagos alveolares (Pue – 1996).
Em 13.748 adultos participantes do National Health and Nutrition Examination Survey III foi demonstrado que quanto maior a inatividade física maior o PCR sérico (Proteína C Reativa) e quanto mais intensa é a atividade física ,sem lesão muscular, menores são os níveis do PCR , mostrando o papel antiinflasmatório do exercício físico.
Efeito antiinflamatório do exercício
Muitos estudos têm demonstrado em jovens saudáveis e em idosos uma associação entre vida sedentária (inatividade física) e inflamação crônica de baixo grau.
Dois estudos longitudinais muito sérios mostraram que a atividade física regular reduz os níveis séricos da Proteína C Reativa , desta forma o treinamento regular funciona como um agente supressor da inflamação crônica subclínica (Fallon –2001 , Mattusch – 2000).
O exercício agudo também mostrou efeito antiinflamatório. De fato, em voluntários submetidos a administração de endotoxina de LPS de E.coli observou-se que no grupo controle houve grande aumento do TNF-alfa enquanto que no grupo com exercício a produção de TNF foi quase abolida (Starkie – 2003).
Exercício e artrite inflamatória
A maioria dos médicos recomendam repouso na fase inflamatória das artrites, porém pesquisadores da Escandinávia demonstraram que o exercício aeróbico com modesto esforço de treinamento melhora a função, a mobilidade e os sintomas das articulações afetadas. Os pacientes que mantém o exercício regular quatro ou mais vezes por semana, apresentam melhoras mais acentuadas e mais duradouras que aqueles que fazem repouso (Roubenoff – 2003 , Ekblom – 1975 , Nordemar - 1981).
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