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Joffre M. de Rezende
Médico Gastroenterologista.
Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira e da Sociedade Internacional de História
da Medicina.
A medicina já foi definida como "um conjunto de verdades provisórias". Por isso mesmo ela se presta a mudanças de conceitos e de condutas, na dependência do seu estádio de desenvolvimento e do embasamento teórico de que dispõe para fundamentar a prática médica. Por outro lado, por mais científica e técnica que ela seja, jamais consegue desvencilhar-se do seu componente de subjetivismo. Torna-se, assim campo fértil para o aparecimento de modismos.
"Modismo" vem de moda e traduz a preferência coletiva por determinadas práticas, costumes, ou maneira de pensar e de agir. Kant interpretou a moda como uma forma de imitação e conclui que "é melhor ser louco segundo a moda do que fora dela". Isto é válido para a vida em sociedade como um todo, desde a maneira das mulheres se vestirem e se pentearem até as teorias filosóficas dominantes.
Na História da Medicina encontramos modismos que atravessaram milênios, ao lado de outros de breve duração; modismos limitados a um povo ou a determinada área geográfica e outros que tiveram aceitação universal; modismos intermitentes que surgiram, desapareceram e renasceram sob nova aparência.
O primeiro deles que gostaríamos de mencionar, por sua importância e universalidade, é a sangria.
Todos os povos, de todas as latitudes, e em todas as civilizações, utilizaram-se da sangria no tratamento das doenças. Inicialmente como um ritual impregnado de conteúdo místico e posteriormente sob o fundamento de doutrinas que justificavam tal prática.
Desde a medicina hipocrática até o século XIX, antes de Virchow, predominou a teoria dos humores para explicar todos os fenômenos biológicos e a sangria se destinava a eliminar as impurezas contidas no sangue, causadores do estado mórbido. Por meio dela retirava-se o humor "vicioso" e outros tipos de humores que se acreditavam responsáveis pelas doenças.
Galeno deu grande importância à sangria. Indicava sangria como tratamento das inflamações, da febre da dor. Tinha o bom senso, todavia, de contra-indicar o seu uso nas crianças e nos velhos.
É interessante assinalar que, no Renascimento, quando todos os valores eram questionados, houve acirrada polêmica, não sobre o valor da sangria, mas sobre o local mais adequado para praticá-la.
Quanto mais grave a doença maior era o número de sangrias e maior a quantidade de sangue retirado.
No Brasil, a sangria era utilizada pelos jesuítas, que chegavam a praticá-la como medida preventiva em casos de epidemias. Usou-se e abusou-se da sangria.
Outra variante da sangria consistia na aplicação de sanguessugas.
As sanguessugas são vermes que vivem em águas estagnadas, represas e lagos, e que se alimentam de sangue de animais que penetram nessas águas. São dotadas de uma ventosa na extremidade proximal e cada exemplar pode sugar entre 10 a 15 ml de sangue. Foram muito utilizadas em substituição à sangria.
No início do século XIX o comércio de sanguessugas constituía uma atividade bastante lucrativa, sobretudo na Europa. Os hospitais da França, somente no ano de 1824, despenderam meio milhão de francos na aquisição de sanguessugas para uso em seus pacientes.
Broussais, professor de Patologia Geral em Paris, tornou-se campeão no emprego de sanguessugas, chegando a aplicar centenas de sanguessugas por dia no mesmo paciente. As hemorróidas, especialmente, eram tratadas pelas sanguessugas aplicadas localmente.
Outra panacéia de aceitação universal, que perdurou até o início do século XX, foi o do uso dos purgativos e clisteres.
Desde a medicina grega que se acreditava ser o intestino uma via natural de eliminação da "materia morbi", ou seja de substâncias nocivas causadoras de doenças. As fezes, por outro lado, sempre foram vistas como excrementos tóxicos, capazes de envenenar o sangue. A idéia de "intoxicação", como conseqüência da prisão de ventre, ainda perdura no entendimento das pessoas menos esclarecidas. Ouvimos, freqüentemente, de pessoas simples, o termo "intoxicado" como sinônimo de "obstipado". Prescrevia-se purgativo e clister para todos os enfermos e para todas as doenças.
O uso sistemático da sangria, dos purgativos e clisteres foi objeto de acerbas críticas por parte de escritores, dramaturgos e artistas, que nos legaram sátiras irreverentes sobre essa terapêutica polivalente. A mais célebre delas se deve a Molière, na comédia intitulada "O doente imaginário". Nesta peça há uma cena em que o novo médico recebe o grau de doutor após sua aprovação no exame final.
"Clysterium donare, postoe seignare, ensuita purgare", diz o examinando em latim, como era costume na época (Dar clister, depois sangrar, em seguida purgar).
"Bene, bene dignus est intrare in nostro docto corpore" (sois digno de entrar em nossa douta corporação), replicam os examinadores.
Depois de jurar estar sempre de acordo com os colegas mais velhos, é-lhe conferido o direito de "medicar, purgar e sangrar", impune por toda a Terra.
O uso periódico de purgativo com a finalidade de "limpeza" ainda perdura entre os leigos, o que poderia ser interpretado, à luz dos ensinamentos de Freud, como desejo inconsciente de uma catarse, no sentido psicanalítico do termo.
Em recente artigo, publicado na revista Annals of Internal Medicine, março de 1982, seu autor, Lacey Smith, chama a atenção para um dos paradoxos da medicina, que é o progresso da técnica adiantar-se à evolução dos conceitos e das idéias que devem fundamentar a atividade médica. E cita como exemplo o grande desenvolvimento da cirurgia no inicio do século XX, o que levou à prática de colectomias e operações de curto-circuito para corrigir nada menos que a constipação intestinal e a auto-intoxicação, à qual se atribuía uma infinidade de males, desde a cefaléia até o câncer. Em outras palavras, o avanço da técnica cirúrgica permitiu substituir o uso de purgativos pelas anastomoses e ressecções do colo, tornando o tratamento muito mais agressivo.
A ventosa constituiu outro recurso de que se socorria a medicina no passado para o tratamento das mais diversas doenças, especialmente aquelas do aparelho respiratório, como a pneumonia e a pleurisia.
A idéia de que a aplicação de ventosas no tegumento cutâneo exerce ação antiflogística nas vísceras subjacentes perdurou até 50 anos atrás. Usavam-se ventosas secas e sarjadas, estas últimas produzidas após escarificação da pele. A sucção pelo vácuo determinava o aparecimento de uma grande mancha roxa de contorno circular, quando a ventosa era seca, e de um grande coágulo sangüíneo no interior do recipiente, quando se praticava previamente a escarificação. A doença seguia o seu curso e se este era favorável todo êxito era creditado à ventosa.
Alguns modismos são revivescências de práticas que remontam às antigas civilizações.
Exemplo típico é o da acupuntura, introduzida na China há mais de 3000 anos. Na primitiva civilização chinesa a doença era considerada um desequilíbrio entre os dois princípios que formam o Universo - Yang e Yin. O tratamento pela acupuntura visava a ativar o Yang, existente em todos os seres, princípio gerador de energia e do fluido vital, sem o qual o corpo perece. O fluido vital, segundo essa doutrina, percorre o corpo por 12 canais ou chins, que devem ser penetrados pelas agulhas com o fim de aumentar a vitalidade dos órgãos e do corpo como um todo.
A acupuntura perdura nos dias atuais desprovida de seu primitivo significado, sendo empregada como forma de anestesia e como terapêutica polivalente para as doenças crônicas. As agulhas devem penetrar em pontos estratégicos distribuídos por todo o corpo. Existe a crença de que esses pontos são refratários à infecção e alguns acupunturistas, no passado, se limitavam ao uso do álcool como anti-séptico. Nessas condições, a acupuntura era um meio eficaz de propagação das hepatites B e C.
Outra prática que remonta aos tempos hipocráticos é a do uso das fontes hidrominerais como recurso terapêutico. Mesmo admitindo-se que as águas minerais possam ter algum valor terapêutico, é forçoso reconhecer que o prestígio das "estações de águas" tem oscilado no curso da História entre períodos de esplendor e períodos de esquecimento.
O uso das fontes naturais teve o seu apogeu na medicina grega, de onde se transferiu para a Itália. Após um período de declínio de seu uso, voltou a ganhar prestígio a partir do século XIX, constituindo modismo obrigatório para as classes de maior renda na "belle époque" que antecedeu a primeira guerra mundial (1914-1918). Os pacientes de baixa renda que não pudessem freqüentar as mais famosas estações hidrominerais, poderiam adquirir pelo Correio os sais retirados dessas águas a fim de refazê-las em seu próprio domicílio, conforme documentam anúncios publicados na imprensa médica da época. O desenvolvimento da crenoterapia levou algumas Faculdades de Medicina, em diversos países, a incluir o estudo das águas minerais ou Crenologia, no currículo do curso médico. A crença no poder terapêutico das "estações de água", como se denominava a permanência durante um certo período nos locais das fontes hidrominerais arrefeceu após a segunda guerra mundial e atualmente, com raras exceções, em alguns países onde a publicidade dirigida mantém a credibilidade na sua ação terapêutica, as estâncias minerais nada mais representam que atrações turísticas e opções de lazer, tendo perdido por completo toda a mística do seu poder curativo e todo o ritual que acompanhava a sua utilização.
Alguns modismos recidivantes renascem ao longo da história, ressurgindo aqui e ali sob roupagem e técnicas diferentes. Exemplo típico é o do emprego da sugestão, do poder hipnótico. Situado nos limites da ciência com o charlatanismo, tornou-se um instrumento de fácil manejo pelos charlatães, curandeiros e benzedores, na exploração da credulidade popular. Um dos surtos mais importantes ocorreu sob o disfarce de doutrina científica no final do século XVIII com o nome de mesmerismo.
Franz Mesmer ressuscitou a prática da "imposição das mãos", conhecida desde os tempos bíblicos, sob o fundamento de uma nova teoria por ele desenvolvida, que chamou de "magnetismo animal". Segundo essa teoria, todo ser vivo possui fluido magnético que pode ser aproveitado na cura das doenças. Sua doutrina tornou-se muito popular na França e Mesmer ganhou somas fabulosas. Não podendo atender individualmente a todos os que o procuravam, realizava sessões coletivas em que o fluido magnético se transmitia através da água acidulada. Entre os seus clientes contavam-se eminentes políticos e toda a aristocracia, inclusive Maria Antonieta e o próprio rei Luiz XVI, que lhe ofereceu a soma de 10.000 francos para fundar o Instituto Magnético.
A Revolução Francesa de 1793 obrigou-o a deixar a França e transferir-se para a Suíça, perdendo todos os seus bens. Sua doutrina, entretanto, continuou a ter seguidores entre médicos e pensadores ilustres,atraindo todos aqueles com tendência para o místico e o sobrenatural. Da França, o mesmerismo passou para a Inglaterra e chegou até ao continente americano.
O descrédito do mesmerismo decorreu da proliferação de impostores e charlatães, que se diziam magnetizadores e que usavam os mais diferentes processos para ludibriar os incautos.
É interessante observar como as crenças religiosas e os sistemas filosóficos exerceram influência na interpretação da natureza das doenças e na prática da medicina.
A idéia de que as doenças mentais estivessem vinculadas a maus espíritos valeu os tratamentos mais desumanos aos alienados. Foi somente no início do século XIX, depois dos trabalhos de Valsalva e Pinel, que os distúrbios mentais passaram a ser considerados como doenças ligadas ao sistema nervosos central e os doentes deixaram de ser acorrentados ou confinados em condições desumanas.
No século XVII duas concepções filosóficas se digladiavam, reivindicando, cada uma delas, a primazia na interpretação dos fenômenos biológicos e patológicos - a iatrofísica e a iatroquímica. Para os iatrofísicos todas as manifestações vitais decorriam de fenômenos físicos ou mecânicos e a vida nada mais seria que o resultado do movimento, passível de ser reduzida a formulas matemáticas. As doenças, por sua vez, seriam mera expressão da quebra da harmonia dos fenômenos físicos.
Para os iatroquímicos a vida seria o resultado de combinações e reações químicas e todas as doenças deveriam ser tratadas quimicamente.
Ambas as escolas tinham sua parcela de razão. Os iatroquímicos, contudo, influenciaram mais fortemente a terapêutica, introduzindo numerosas substâncias no tratamento das doenças, sobretudo compostos metálicos de Hg, As, Sb, Bi e Fe. Alguns destes compostos tiveram sua utilidade comprovada no decorrer do tempo, enquanto outros foram abandonados por sua ineficácia ou toxicidade. Dentre estes últimos cumpre destacar o cloreto mercurioso ou calomelano, usado como purgativo e anti-séptico intestinal, e que produziu mais vítimas do que as doenças que intentava curar.
Há modismos que nascem ao acaso de uma observação fortuita e se transformam em sistema que encontra seguidores e defensores por toda parte. Foi o que ocorreu, por exemplo, com a homeopatia.
Christian Friedrich Samuel Hahnemann, fundador da homeopatia, viveu de 1755 a 1843. A idéia da homeopatia surgiu-lhe por ter apresentado reação febril após fazer uso da quina. Ora, raciocinou ele, se a quina é usada para combater a febre e é capaz de produzir febre, então devemos usar substâncias que produzam quadros semelhantes aos das doenças que desejamos combater. Dai a divisa "Similia similibus curantur", ou seja, a terapêutica deve basear-se nos semelhantes e não nos contrários. Sua teoria foi muito ridicularizada na época.
Hahnemann acreditava que os efeitos de um medicamento aumentam à medida que reduzimos as doses; daí surgiu a teoria da potenciação ou dinamização pela diluição progressiva. Tratando-se de líquidos, por exemplo, 2 gotas da tintura original são diluídas em 98 gotas de álcool; uma gota desta nova solução é diluída em 99 gotas de álcool e assim sucessivamente, até o máximo de 30 diluições.
Hahnemann condensou toda a sua doutrina em um livro publicado em 1810 sob o título de ORGANON. Para ele todas as doenças crônicas seriam conseqüência de três causas - a sífilis, a sicose e o prurido. Muitos de seus continuadores, entretanto, não aceitaram esta singular nosografia e conservaram apenas o princípio dos semelhantes e das dinamizações.
O sucesso da homeopatia decorreu, provavelmente, do fato de não causar dano ao paciente, permitindo sua recuperação espontânea, ao contrário da polifarmácia que imperava no século XIX, na qual figuravam muitos medicamentos tóxicos e de eficácia duvidosa.
O prestígio da homeopatia declinou algum tempo, para ressurgir, revitalizado, nas últimas décadas e atualmente a homeopatia é reconhecida em muitos países como especialidade médica..
Um capítulo da História da Medicina fértil em modismos tem sido o das dietas. A preocupação com as dietas como meio de tratamento das enfermidades remonta às antigas civilizações. Na medicina grega a dieta assumiu trascendental importância. Dentre os livros que compõem o Corpus hippocraticum existe um tratado dedicado exclusivamente à dieta. Galeno dava grande importância à dieta, tanto no tratamento como na prevenção das doenças.
Em todas as épocas houve sempre a tendência de prescrever uma dieta restritiva aos enfermos, até o mínimo da dieta hídrica e de jejum absoluto, adotada para os pacientes febris. A dieta de jejum só foi derrubada no século XIX por Graves, o mesmo que descreveu o bócio tóxico. Graves expressou o desejo de que em seu epitáfio constassem as seguintes palavras: "ele alimentou os doentes febris".
Certas dietas são claramente influenciadas por alimentos, os quais variam com a época e com a cultura de um povo. Como bem expressou o Prof. Luiz de Paula Castro, a propósito das dietas utilizadas no tratamento da úlcera péptica, "as qualidades ou defeitos dos alimentos, que os fazem participar de uma ou outra dieta, são definidos mais por força da tradição, e mesmo do folclore e da crendice popular, que por qualquer razão cientifica".
Assistimos atualmente um renovado interesse pelas dietas vegetariana e macrobiótica.
Sem negar valor a qualquer tipo de dieta é preciso, entretanto, evitar os procedimentos extremados, que constituem os modismos e que nenhum benefício trazem à saúde.
A obesidade tem sido, através dos tempos, uma fonte inesgotável de modismos no que diz respeito à melhor maneira de perder peso. Regimes alimentares os mais variados, exercícios programados, massagens, anorexigênicos, hormônio tiroidiano, etc. Como dizia com senso de humor o Prof. José Schermann, de saudosa memória, duas verdades fundamentais, contudo, deixam de ser ditas em todos os métodos de emagrecimento: a de que só se consegue emagrecer pela redução da ingestão calórica e a de que as únicas glândulas responsáveis pela obesidade, na grande maioria das vezes, são as glândulas salivares. Assistimos, atualmente, o emprego de balões e de intervenções cirúrgicas com o fim de restringir a capacidade do estômago nos casos rotulados de obesidade mórbida. Ainda não se podem prever as conseqüências futuras de tais métodos.
Há modismos que decorrem do próprio avanço dos recursos diagnósticos postos à disposição da prática médica. Exemplo típico é o das visceroptoses, resultado da descoberta dos raios X ao final do século XIX, que permitiu a visualização das vísceras abdominais com o paciente de pé. Como escreveu Barclay em 1936, os médicos estavam habituados a mentalizar a posição das vísceras de acordo com os livros de anatomia e não se cuidou de obter padrões de normalidade com o novo método.
Verificou-se que a topografia e a disposição dos órgãos ao exame radiológico diferia das posições indicadas nos livros de anatomia, e mais ainda, que havia diferenças importantes entre os indivíduos. Concluiu-se, precipitadamente, por uma correlação entre os sintomas apresentados pelos pacientes e as posições anômalas das vísceras. A gastroptose ou "estômago caído" passou a ser responsável por toda espécie de dispepsia; a hepatoptose por disfunções hepáticas; a coloptose por obstipação intestinal; o ceco móvel e a nefroptose, por qualquer manifestação dolorosa no flanco e na fossa ilíaca direita. Inventaram-se cintas apropriadas para levantar o estômago, para manter o rim direto na sua loja, para impedir a descida do colo transverso. E quando o paciente não obtinha os resultados desejados recorria-se ao tratamento cirúrgico - às pexias: gastropexia, colopexia, nefropexia, histeropexia, no sentido de restabelecer a pretensa topografia anatômica de cada órgão.
A essa interpretação simplista, herdeira da medicina iatrofísica do século XVII, sucedeu a medicina constitucionalista,que procurava correlacionar o comportamento biológico e as próprias doenças à constituição do indivíduo e ao seu biótipo. Surgiram as classificações biotipológicas com a descrição de tipos morfológicos e os seus correspondentes perfis dinâmico-humorais.
O longilíneo astênico seria mais sujeito aos distúrbios funcionais do aparelho digestivo, à úlcera péptica, à tuberculose, enquanto os brevilíneos astênicos seriam predispostos às doenças cardiovasculares, aos distúrbios metabólicos, como a obesidade, o diabetes e a gota.
Embora haja um fundo de verdade na biotipologia, os adeptos da medicina constitucionalista levaram ao extremo a importância dos fatores genéticos no determinismo da patologia humana.
A essa visão biogenética seguiu-se uma nova onda que se tornou modismo no século XX - a da medicina psicossomática.
Depois de Freud, a neurose passou a ser considerada como o fator fundamental, não somente dos distúrbios funcionais, como das próprias doenças orgânicas. A úlcera péptica, a hipertensão arterial, a asma brônquica, as coronariopatias, bem como doenças de etiologia desconhecida, como a retocolite ulcerativa inespecífica, passaram a ser explicadas como conseqüência das situações emocionais de estresse. O sistema nervoso autônomo seria o elo intermediário entre a mente e os órgãos efetores.
Após os trabalhos de Alexander, na década de 30, a psicanálise foi considerada o tratamento ideal para a úlcera péptica.
Em todos os movimentos que se tornam moda na conduta médica há sempre um princípio de verdade. O entusiasmo excessivo por uma idéia é que conduz a uma visão unilateral e deformada da realidade, contra a qual deve o médico se precaver. Somente o tempo e a postura crítica diante dos fatos conseguem reduzir a novidade à sua verdadeira dimensão.
Outro modismo que documenta esta assertiva é o da infecção focal, que imperou na primeira metade do século XX. Vários estados mórbidos passaram a ser atribuídos à existência de um foco de infecção que deveria ser localizado e removido. Tendo algum fundamento científico, em virtude dos conhecimentos adquiridos sobre a patogenia da febre reumática e da glomerulonefrite aguda, a teoria da infecção focal foi levada às últimas conseqüências.
Quaisquer que fossem as queixas ou as mazelas do paciente, punha-se o médico, qual um detetive, a procurar um foco de infecção, ao qual pudesse imputar todo o quadro mórbido, fosse ele caracterizado por dores reumáticas, febre de causa ignorada, extra-sistolia, anemia ou estado depressivo.
Muitos dentes foram extraídos e muitas amígdalas operadas, assim como trompas e apêndices removidos, a fim de retirar possíveis prováveis focos de infecção.
Alguns modismos resultaram de analogias nem sempre verdadeiras. Como se conhecia, por exemplo, a ação hormonal do extrato de tiróide dessecado, nada mais lógico do que a utilização de extratos de outras glândulas e órgãos, no tratamento das deficiências, reais ou presumidas, das glândulas e órgãos correspondentes. Surgiu, assim a Opoterapia, que incluía desde o extrato hepático e o extrato do estômago de porco, aos extratos de supra-renais, ovários e testículos. A indústria de tais produtos conseguiu envolver o nome de um pesquisador respeitável que foi Brown Sequard. Tais preparados, quase sempre utilizados por via oral, eram, na verdade, destituídos de ação. O seu uso entrou em declínio depois que se comprovou a sua ineficácia e depois que foram isolados os hormônios em sua forma pura.
Há doenças que constituem verdadeiros modismos e, tanto o médico se vale do diagnóstico fácil que se encontra na moda, como o doente aceita com tranqüilidade o rótulo que o médico lhe oferece. Tal é o caso por exemplo, da colite, termo vago e de natureza imprecisa, muito utilizado no passado para designar os casos de padecimentos abdominais de qualquer natureza.
Axel Munthe, no seu extraordinário Livro de San Michela" nos conta como era bem aceito o diagnóstico de "colite" pela clientela das grandes capitais européias - uma doença compatível com uma longa vida e que garantia ao seu portador o direito de reivindicar maior atenção. Muitos dos casos então rotulados de "colite" correspondem ao que passou a ser designado por colo irritável, colo espástico, neurose cólica, ou mais recentemente, intestino irritável.
A descoberta da responsabilidade do apêndice nos processos supurativos da fossa ilíaca direita, rotulados até então de "peritiflite", despertou no início do século XX um súbito interesse pela remoção do apêndice, fazendo surgir a discutida entidade da "apendicite crônica" como causa de todos os males, impondo a apendicectomia sistemática em todo paciente com queixas abdominais.
Depois que os termos em "ite" se restringiram aos processos inflamatórios bem definidos do ponto de vista anatomopatológico, surgiu a idéia dos distúrbios funcionais de natureza motora e secretora para explicar os quadros clínicos mal definidos. O conceito das discinesias ganhou nova dimensão e a vesícula hipocinética, popularmente chamada de "vesícula preguiçosa", passou a ser a bengala de apoio dos hipocondríacos e a figurar nas conversas elegantes dos acontecimentos sociais.
Mais elegante, entretanto, do que ter a vesícula preguiçosa, é "sofrer do fígado". O fígado tornou-se uma espécie de Pedro Malazartes, ao qual se atribuem todas as mazelas, desde a cefaléia à obstipação intestinal.
O Prof. Waldemar Berardinelli, há alguns anos, escreveu um artigo com muito senso de humor, sob o título de O fígado nacional, no qual ele demonstra que o povo brasileiro é o que mais sofre do fígado em todo o mundo.
Segundo o Prof. Heitor Rosa são três as paixões do brasileiro: futebol, carnaval e "sofrer do fígado". E a indústria farmacêutica sabe disso, pelo volume de vendas diretas ao consumidor, nas farmácias, de "remédios para o fígado". A maioria de tais medicamentos traz em sua fórmula as mais esdrúxulas composições, predominando geralmente a mistura de um pretenso antitóxico com um fator lipotrópico e um laxativo.
A Ginecologia e Obstetrícia têm sido um campo fértil de modismos. Exemplifiquemos com o trabalho de parto.
A parturição, por ser um acontecimento marcante na biologia da mulher e na perpetuação da vida humana, tem dado origem aos mais variados procedimentos e atitudes, ao sabor dos costumes dos povos e das concepções vigentes em cada época.
Nos povos primitivos, tal como ainda em muitas tribos indígenas, o parto é considerado um fenômeno natural, sujeito, entretanto, a complicações fatais. O desejo de auxiliar a parturiente deu origem à idealização de diversas manobras com o fim de facilitar e abreviar o parto. Tais manobras, muitas vezes, em lugar de diminuir, aumentavam o sofrimento da mulher.
Em certas tribos da África usava-se tapar a boca e o nariz da parturiente para que ela, se debatendo para respirar, fizesse esforços capazes de apressar o parto. Entre os índios apaches era costume, nos partos difíceis, pendurar as gestantes em uma árvore por meio de uma corda passada por baixo dos braços. A posição de cócoras é usada por muitas tribos indígenas do Brasil e encontra atualmente adeptos entusiastas, como o Prof. Moisés Paciornik, do Paraná, que difundiu o método. A posição de joelhos foi usada na antiga Grécia e por outros povos. Hipócrates idealizou a manobra conhecida por "sucussão hipocrática" e que consistia em aplicar à parturiente uma série de sacudidas laterais ou verticais. Entre os romanos a paciente assumia uma posição semi-sentada.
Os primeiros livros de Obstetrícia escritos no século XVI foram dedicados às "comadres", como eram chamadas as parteiras de baixo nível cultural, uma vez que era interdito ao homem assistir ao parto. No ano de 1522, na cidade de Hamburgo, um médico que se vestiu de mulher para assistir a um parto foi descoberto e pagou com a vida a sua ousadia, tendo sido queimado vivo.
Ultrapassado o obscurantismo da Idade Média e vencidas as barreiras preconceituosas, os médicos e cirurgiões passaram a ser admitidos nos cuidados às parturientes, o que fez com que se acentuasse a tendência intervencionista no trabalho de parto. Em 1834, segundo Kilian, já se contavam 130 modelos diferentes de fórceps, que se empregavam em cerca de 40% dos partos. Com a descoberta da anestesia e o advento da antissepsia, a operação cesariana tornou-se a opção preferida.
Assistimos hoje ao modismo das cesarianas. As gestantes recebem bem a operação cesariana como maneira de suprimir a dor e preservar sua própria anatomia. O obstetra, por sua vez, no atual sistema de trabalho, que exaure suas energias no dia-a-dia da profissão, nem sempre tem condições de acompanhar um parto horas a fio, noite adentro, suportando pressões dos familiares que pedem insistentemente ao doutor "para dar um jeito". E a cesárea é a solução. Por vezes, chega a ser programada previamente como opção bilateral.
Sempre houve, entretanto, uma corrente favorável ao parto natural, desde a escola de Viena, no século XVIII. Percebe-se, atualmente uma reação salutar nesse sentido, em nosso País, uma volta à natureza, tal como vem ocorrendo em relação à amamentação materna, para desgosto das indústrias do leite em pó.
Há modismos inofensivos, porém há modismos que encerram um grande potencial de risco, como os psicotrópicos, cujo consumo vem aumentando assustadoramente. A depressão tornou-se a doença da moda. É um equívoco pensar que a solução da angústia humana está na farmacologia do sistema nervoso.
Muitos outros exemplos de modismos poderiam ser citados, tais como o das autovacinas, da auto-hemoterapia, da hipoglicemia espontânea, etc.
Além dos modismos de responsabilidade médica há os modismos da medicina popular, que surgem a cada dia e que sobrevivem por um tempo variável, até serem substituídos por outros.
Não foi nosso propósito esgotar o assunto e sim enumerar alguns exemplos que nos ajudem a refletir sobre as vicissitudes da prática médica; lançar uma visão para o passado, pensando no futuro.
Também não tivemos a intenção de ser negativista. Não há razão para negativismos. O progresso da medicina é real e contínuo. A prática da medicina não mais se baseia em hipóteses e sim em comprovações experimentais.
A expectativa de vida tem aumentado nas últimas décadas, em conseqüência, sobretudo, das ações preventivas de saúde; dispomos, hoje, de maiores recursos diagnósticos e terapêuticos do que no passado; muitas doenças então praticamente erradicadas, enquanto outras estão sob controle. Graças aos antibióticos já não se morre tão facilmente de doenças infecciosas, como a pneumonia e a febre tifóide. O avanço da cirurgia foi de tal ordem que os doentes já não aceitam a eventualidade de um insucesso e temem mais o risco anestésico do que o ato cirúrgico em si.
Há, ainda, é verdade, o espectro do câncer, as doenças cardiovasculares, as endemias próprias do subdesenvolvimento e, sobretudo, as desigualdades sociais que impedem que todos os povos e todas as pessoas tenham livre acesso às conquistas da ciência e da tecnologia, colocadas a serviço da saúde.
Há uma razão maior que nos impede a todos, de sermos negativistas. O médico, por dever profissional, necessita acreditar no papel da medicina e na sua própria missão. Do contrário não poderia oferecer aos seus pacientes a melhor de todas as terapêuticas, que é a esperança.
*Adaptado do livro Vertentes da medicina, São Paulo, Ed. Giordano, 2001, p.37-50
Autor: Joffre M. de Rezende
E-mail: jmrezende@cultura.com.br
http://usuarios.cultura.com.br/jmrezende
16/08/2003
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