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Joffre M. de Rezende
Médico Gastroenterologista.
Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira e da Sociedade Internacional de História
da Medicina.
Este aforismo define o compromisso do médico para com os doentes e foi consagrado como divisa da própria medicina. É freqüentemente atribuído a Hipócrates. [1-2] Poderia talvez ter sido inspirado na medicina hipocrática, mas não é encontrado nos livros que integram o Corpus hippocraticum.
Há duas traduções das obras de Hipócrates que são clássicas: a tradução francesa de Littré e a tradução inglesa de Jones.
No livro Peri Tékhne (Da Arte), Hipócrates define a medicina e seu principal objetivo da seguinte maneira:
Na tradução francesa de Littré: Quant á la médecine (car c'est d'elle qu'il sagit) j'en vais faire la demonstration; et d'abord la définissant telle que je la conçois, je dit que l'objet en est, en général, d'écarter les souffrances des malades et diminuer la violence des maladies"... [3]
Na tradução inglesa de Jones: "First I will define what I conceive medicine to be. In general terms, it is to do away with the sufferings of the sick, to lessen the violence of their diseases..." [4]
Vemos que a preocupação do autor se concentra em aliviar os sofrimentos do paciente e diminuir a gravidade das doenças. Não foi dada ênfase à cura, que, na época de Hipócrates, como ele mesmo ensinava, dependia muito mais da natureza (Physis) do que da atuação do médico. As doenças seguiam o seu curso natural, tinham seus dias críticos e o papel do médico era "auxiliar a natureza".
Também não há menção a "consolar" e, na própria definição da medicina, Hipócrates acrescenta que o médico não deve cuidar de casos graves, incuráveis, para os quais a medicina não dispõe de recursos.[3-4] Era uma tradição da medicina grega não acolher no Asklepeion, que era um misto de hospital e templo consagrado a Asklepiós, deus da medicina, os doentes terminais ou incuráveis.
É evidente que, não sendo da época de Hipócrates, o referido aforismo é de data posterior. O apelo ao sentimento piedoso de solidariedade humana como missão adicional do médico nos faz crer na influência do cristianismo. Do mesmo modo que os deuses da mitologia grega foram substituídos por Cristo no juramento de Hipócrates, assim também o médico deveria cuidar dos doentes sem possibilidade de cura (consolar sempre).
Nas referências mais antigas o aforismo data do século XV e está redigido em francês: "Guerir quelquefois, soulanger souvent, consoler toujours." Possivelmente a frase em francês já é uma tradução do latim medieval. Há em latim uma sentença semelhante: : "MEDICUS QUANDOQUE SANAT, SAEPE LENIT ET SEMPER SOLATIUM EST"(O médico às vezes cura, muitas vezes alivia e sempre é um consolo). [5]
Do francês o aforismo foi traduzido para outras línguas:
Em inglês: "To cure sometimes, to relieve often, to comfort always".
Em italiano: "Guarire qualche volta, alleviare spesso, confortare sempre".
Em espanhol: "Curar algunas veces, aliviar frecuentemente y consolar siempre"
Em português, ao contrário do francês e do inglês, a frase tem sido redigida com algumas variações de palavras.
1. Curar algumas vezes, aliviar quase sempre, consolar sempre.
2. Curar algumas vezes, aliviar freqüentemente, consolar sempre.
3. Curar algumas vezes, aliviar muitas vezes e consolar sempre.
4. Curar algumas vezes, aliviar outras, consolar sempre
5. Curar algumas vezes, aliviar freqüentemente, confortar sempre.
6. Curar algumas vezes, aliviar outras, cuidar sempre"
7. Curar algumas vezes, aliviar o sofrimento sempre que possível, confortar sempre (Portugal)
A tradução que mais se aproxima do original francês é a do item 3: Curar algumas vezes, aliviar muitas vezes, consolar sempre.
Em alguns artigos veiculados pela imprensa médica e em vários textos que se encontram na Internet seus autores atribuem a paternidade do aforismo a Trudeau, como nos seguintes exemplos:
"Curar algumas vezes, aliviar outras, cuidar sempre – uma lição secular do Dr. Edward Trudeau, que não devemos esquecer". [6]
"A psicoterapia foge um pouco ao mandamento obrigatório na medicina,: "Curar às vezes, aliviar com freqüência, consolar sempre" (Francis Trudeau)[7]
Outros dão a autoria a Osler, como neste registro:
"Com o ressurgimento dos Cuidados Paliativos volta a fazer sentido a expressão de Osler..."Curar às vezes, aliviar com freqüência, consolar sempre". [8]
Em um noticiário de jornal encontramos a seguinte nota:
"O médico tem que curar algumas vezes, aliviar muitas e consolar sempre". É com base nesse ensinamento de Northnagel, que estudantes do curso de Medicina... desenvolvem o Projeto de Vivência na Integração Médico Paciente, o Provimp."[9]

Edward Linvingstone Trudeau (1848-1915) foi um médico norte-americano que se dedicou ao tratamento da tuberculose e fundou um Sanatório para tuberculosos em Saranac Lake, nos Estados Unidos. Ele foi de uma dedicação extrema aos doentes em uma época em que ainda não havia tratamento específico para esta enfermidade. Em 1918, seus ex-pacientes se quotizaram e erigiram, junto ao Sanatório, um monumento em sua memória, em cujo pedestal foi gravado o aforismo em francês. As pessoas mal informadas julgam que ele foi o autor da frase.
William Osler (1849-1919), por sua vez, foi o maior clínico do século XX, tendo sido um dos fundadores da Faculdade e Hospital John Hopkins, em Baltimore, que serviram de modelo para a implantação da moderna medicina norte-americana.
Além de docente e pesquisador, Osler destacou-se por sua preocupação com o lado humano da medicina e suas citações do aforismo foram atribuídas à sua própria autoria.
O nome de Northnagel ficou consagrado na Northnagel'sEncyclopediaof PracticalMedicine, do início do século XX.
Em realidade, não se conhece o autor da frase, nem quando a mesma foi usada pela primeira vez. O citado aforismo aflorou naturalmente como síntese da própria medicina e do compromisso do médico para com a humanidade sofredora.
Referências bibliográficas
1. DRUSS, R. G. - Introspections. To Comfort Always. Am J Psychiatry 160:25-26, January 2003
2. GOLDBLOOM, D.S. - Editorial. Language and Metaphor. CPA Bulletin, Toronto, Ontario. Internet. Disponível em 17/12/2005, em
http://www.cpa-apc.org/Publications/Archives/Bulletin/2003/june/editorialEn.asp
3 HIPPOCRATE - Oeuvres complètes (tradução E. Littré). De l'art. Paris, Javal et Bourdeaux, 1933, p.190.
4. HIPPOCRATES - The art. (trad. W.H.S. Jones). The Loeb Classical Library, 1972, vol II, p. 193.
5. REZENDE E SILVA, A. V.- Phrases e curiosidades latinas. 5a. ed. fac-similar, Rio de Janeiro, 1955, p.402.
6. VITAL, Q.S., NEUBARTH, F.- Dor. Internet. Disponível em 17/12/2005, em
http://www.revbrasreumatol.com.br/pdf/44_01_071.pdf
7. EDELWEISS, M.L. O cliente, a psicoterapia e o seu contexto. Internet. Disponível em 17/12/2005, em
http://www.malomar.com.br/textos/texto02a.htm
8. NUNES, R. - O Doente Oncológico em Fase Terminal. Internet. Disponível em 17/12/2005, em
http://quimioterapia.com.sapo.pt/Atitudes%20e%20comportamentos.htm
9. MADEIRO, M. - Curar, aliviar, consolar sempre - Diário do Nordeste, Fortaleza, 16/09/1998.
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