Entrevista para Revista italiana Armonia - 2003
O Brasil por ser um país de contrastes tem diversas racionalidades e práticas médicas a seu dispor. De um lado, uma medicina tradicional indígena ou oriunda dela, que emprega ervas na cura das moléstias e por outro uma Medicina Alternativa ou Complementar nas regiões Sul e Sudeste, que tem uma parcela da população que usufrui de um padrão de vida que se assemelha ao de países do primeiro mundo.
E como os profissionais de saúde classificam e desenvolvem a medicina não convencional? Como atuam neste campo? Os profissionais que atuam na MAC têm como oferecer a melhor terapêutica de cura a seus doentes? Por que se chama a Medicina Não Convencional “ Medicina Complementar”?
Sabe-se que a proposta da MAC não é o simples desenvolvimento de uma atividade médica, como conceito último a ser seguido, bastando-se por si mesmo, não abrindo espaço para outras opções. Não é o meio de cura que se visa mas o .....SER HUMANO em sua integralidade. O HOMEM é o fim último que se objetiva com a MEDICINA ALTERNATIVA e COMPLEMENTAR.
De acordo com o PROFESSOR DR. JOSÉ DE FELIPPE JR., fundador, ex-presidente e atual vice-presidente da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA COMPLEMENTAR, inicialmente explica que a nomenclatura foi definida pela ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, a Medicina dita clássica é chamada “convencional”. A Medicina de um povo desde a China , Índia até a do nosso “caboclo”: “Medicina Tradicional”. A Medicina Complementar é: “Não Convencional”.
A prática das MAC e terapias congêneres é o método de cura integral e eficaz para o ser humano de um futuro que a cada instante se faz velozmente mais presente.
DR. DE FELIPPE mostra aos leitores de ARMONIA como isto será possível, respondendo didaticamente as questões que interessam a todos os que se tratam ou procuram tratar-se por meios das práticas e racionalidades alternativas e complementares àquela medicina que foi aplicada e não teve resultado. A medicina convencional deve ser usada em primeiro lugar, porém, estamos cientes que muito desconhecemos .
O Código Brasileiro de Deontologia Médica, norma ética superior, cuja defesa e vigilância, lhe impõe a Lei Federal, dispõe em seu Capítulo 1, princípio VII:
“È de exclusiva competência do médico a escolha do tratamento, podendo em benefício do paciente, sempre que julgar necessário, solicitar a colaboração de colegas”.
Nas páginas seguintes informa ser vedado ao médico no exercício de sua profissão:
“Deixar de utilizar todos os conhecimentos técnicos ou científicos, ao seu alcance, contra o sofrimento ou extermínio do homem”.
2 – O senhor acredita que um médico alopata seria compreensivo o suficiente para encaminhar o doente a outro profissional que não fosse alopata?
Na 18ª. Assembléia Médica Mundial, realizada em Helsinque, Finlândia, em junho de 1964, posteriormente revisada na 29ª. Assembléia Médica Mundial realizada no Japão em outubro de 1975 e finalmente rediscutida na 35ª. Assembléia Médica Mundial na Itália em outubro de 1983, e que ficou conhecida como DECLARAÇÃO DE HELSINQUE, se afirma:
“A missão do médico é proteger a saúde do homem. Seus conhecimentos e sua consciência são devotados ao cumprimento dessa missão”.
“No tratamento do paciente, o médico deve ter a liberdade para utilizar novos métodos diagnósticos e terapêuticos se em sua opinião oferecem esperanças de salvar a vida, de restabelecer a saúde ou minorar o sofrimento”.
Os benefícios potenciais, os perigos e o desconforto de um novo método deve ser pesado contra as vantagens do melhor método diagnóstico ou terapêutico em uso corrente”.
3 - Por esta idéia a medicina aplicada não seria entendida como “ALTERNATIVA”?
Em 1990, escrevemos a Segunda Edição do livro “Pronto Socorro : Fisioterapia – Diagnóstico – Tratamento” (Ed. Guanabara – Koogan), utilizado em várias Faculdades de Medicina Alternativa no Serviço de Emergência” composta de 4 capítulos: Homeopatia, Fitoterapia, Antroposofia e Radicais Livres como Mecanismo Intermediário de Moléstia. Escrevíamos na ocasião que esta parte do livro deveria se intitular “Medicina Complementar”, porque “ ALTERNATIVA” nos dá a idéia de escolha, de exclusão e na verdade o que estamos procurando é somar conhecimentos e terapêuticas para atingirmos nossa meta final, que é o bem estar, a saúde do paciente.
Este bem-estar, esta saúde, pode ser conseguida de várias maneiras. A medicina acadêmica deve ser usada em primeiro lugar, porém, não sabemos tudo e, quando chegamos ao ponto onde já empregamos todo o conhecimento da medicina tradicional (convencional) pela qual nos formamos e seguimos, devemos, pensando na razão de nossa própria profissão e em nosso paciente, usar todos os recursos disponíveis. Trata-se de um médico formado, ético e humano, procurando encontrar soluções.
Nós queremos buscar a melhor terapêutica para o paciente que está na nossa frente.
Toda pessoa tem o direito de receber tudo aquilo que a medicina convencional alopática pode oferecer a ela. Quando todos os recursos da medicina assim forem utilizados nós estaremos autorizados a buscar medidas não convencionais de tratamento chamadas “medicinas complementares”.
Se você somente tem um martelo na mão entende que tudo que está ao seu redor deve ser tratado como prego.
É preciso ter visão ampla para saber o que o paciente precisa. Visa-se o homem... Assim, se realmente quisermos resolver os problemas dos nossos pacientes, devemos ser objetivamente humildes e honestos o suficiente para encaminhá-los ao homeopata, ao acupunturista, ao médico biomolecular, ao fitoterapeuta, ao homotoxicologista, ao quiroprático, etc...
Existem certos conceitos e preceitos que são importantes para todas as pessoas doentes.
4 - Que conceitos e preceitos seriam estes?
1º. – Em primeiro lugar nas células. Todas as células necessitam de 45 nutrientes essenciais que funcionam como matéria prima para a célula produzir tudo o que necessita:
energia, anticorpos, hormônios etc....
Uma pessoa com os 45nutrientes em ordem vai responder melhor à alopatia, à homeopatia, à acupuntura, porque os nutrientes são também indutores de genes. Eles fazem os cromossomas trabalhar.
2º. – Vivemos no Planeta Terra inundado de metais tóxicos, agrotóxicos , aditivos alimentares, xenobióticos ; a presença deles atrapalha a função dos 45 nutrientes.
Nem a floresta amazônica escapa, pois há a presença de garimpos, com a utilização de mercúrio.
Por exemplo, a presença de chumbo no organismo diminui a produção de serotonina.
3º. – Há alimentos que podem provocar doenças. Existem as alergias e as intolerâncias alimentares.
Na minha clínica todos os pacientes preenchem um questionário de 400 perguntas, passam por exame de bio-ressonância, para ver a presença de metais tóxicos, agrotóxicos e se existe alergia ou intolerância alimentar.
Solicitamos 44 exames de sangue para testar o sistema endócrino e a função dos principais órgãos .
Cuidamos da ingestão do sódio, quem ingere muito sal diminui o grau de ordem e informação do sistema termo-dinâmico aberto que é a célula.
O nosso lema é: “Eu cuido de sua célula e a sua célula cuida da sua doença”.
4º. - Não podemos esquecer das influências dos campos eletro-magnéticas no funcionamento das células . Devemos afastar os pacientes das zonas geopatogênicas. Existem locais que provocam doenças e esta descoberta se deve ao médico alemão DR. HANS NIEPER, que constatou que 80% dos pacientes com câncer dormiam em zonas geopatogênicas, isto é, regiões sob a influência de ondas magnéticas.
5º– Quem foi o pioneiro da MAC no Brasil e qual o primeiro ramo que se desenvolveu oficialmente?
O pioneiro foi DR. WU TOU KWANG, médico e professor de acupuntura, radiestesia e radiônica, em São Paulo no instituto denominado CEATA – CENTRO DE ESTUDOS DE ACUPUNTURA E TERAPIAS ALTERNATIVAS.
O primeiro ramo da medicina oficializado foi a Estratégia Biomolocular e a Ortomolecular.
6 – As MAC são aceitas e reconhecidas pela população em geral? E qual o ‘status” da Homeopatia e da Acupuntura?
Há muita resistência nas Faculdades de Medicina e nas Associações Médicas convencionais, mesmo de estratégias já reconhecidas como especialidade pelo Conselho Federal de Medicina como a Homeopatia e a Acupuntura. As outras você pode imaginar, são tratadas como não ciência e até como charlatanismo. Entretanto, a atitude atual (de 1990 a 2005) de muitos especialistas e órgãos oficiais em tentar impedir estratégias terapêuticas ainda não consagradas nos faz lembrar de Guizot, que há dois séculos deu parecer à Academia de Medicina Francesa sobre uma nova terapêutica que estava surgindo:“A ciência deve ser para todos os médicos. Se esta nova terapêutica é uma quimera ou um método sem valor próprio, cairá por si mesma. Se ao contrário, é um progresso, expandir-se-á, apesar de todas as medidas contrárias”. Guizot referia-se à HOMEOPATIA.
A homeopatia e a acupuntura foram oficializadas como especialidades médicas pela Associação Brasileira de Medicina e a Estratégia Biomolecular / Ortomolecular foi regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina na Resolução 1500/98. A homeopatis e a acupuntura continuam iguais como ciência, sendo praticadas pelos mesmos médicos, mas, não são mais consideradas alternativas. E assim acontecerá com as outras práticas consideradas ainda hoje como alternativas ou complementares.
7 - Em todos os setores existem profissionais sérios e os que se aproveitam da boa-fé do doente. Como este pode distinguir o bom do mau profissional no âmbito da MAC?
seria muito bom se os pacientes se orientassem na busca de outros tipos de terapêuticas sob a supervisão dos próprios médicos, para que não caíssem em mãos indesejáveis ou comercialistas. Entretanto, a maioria dos médicos, ou por desconhecimento ou por abominarem tudo aquilo que foge dos conceitos aprendidos na escola, deixam o doente sozinho na tarefa de discernir sobre a terapia mais adequada. Os médicos devem ter a mente aberta para as novas aquisições, mesmo quando ainda não consagradas. Os Conselhos de Medicina devem cumprir suas obrigações, como a de coibir os abusos e ajudar os próprios médicos na proteção dos pacientes contra colegas inescrupulosos e que praticam uma medicina não ética.
Não podemos confundir “medicina não convencional” com “charlatanismo”. A diferença conceitual entre eles é de natureza científica, ética e moral. Enquanto a primeira se caracteriza pelo uso de metodologia e tecnologia científicas para coadjuvar e morais dos códigos da profissão médica, a segunda exerce a prática sem conhecimento e estudo temático, procurando apenas beneficiar-se de algum modo.
8 _ A Homotoxicologia é reconhecida como MAC , no Brasil? E a Nutrologia? E a Naturologia? Ea Fitoterapia?
A Homeotoxicologia é MAC. Nutrologia é uma especialidade médica. Naturologia não é matéria médica, é uma profissão de terapeutas.
9 – É necessário ser médico? Psicólogo poderia exercer uma MAC?
MAC, o nome diz, somente médico poderia exercer a profissão, mas nós aceitamos outros profissionais não médicos para juntar-se a nós na associação Brasileira de Medicina Complementar (ABMC) para fazer uma melhor e a mais completa abordagem do paciente.
10 – Os medicamentos utilizados pela MAC necessitam de prescrição médica?
Sim.
11 - E as terapias alternativas, quais são? Quais são as mais aceitas e as mais confiáveis? Têm respaldo científico? A Ayurvedica e Florais de Bach são terapias confiáveis? Yogaterapia, incluindo o Yoga de Lonavla, seria uma terapia complementar confiável?
Nós chamamos “terapias complementares.... A Ayurvedica é uma milenar terapia indiana e é considerada Medicina Tradicional pela OMS. Florais têm vários trabalhos científicos. Yoga é uma boa estratégia para o “STRESS”.
12-As empresas farmacêuticas que produzem remédios homeopáticos, homotoxicológicos e similares têm influência sobre as escolhas terapêuticas?
Remédios homeopáticos: não. Inúmeras farmácias existem no Brasil todo.
Remédios homotoxicológicos: Sim. Só existe um laboratório no Brasil, a HEEL. É um absurdo.
Remédios Antroposóficos: Também somente existe um laboratório: WELLEDA. O pior de tudo é que a Medicina Antroposófica, da Escola Alemã, está espalhada pelo mundo e somente utiliza um tipo de indústria que é, repito, a Welleda. Assim , os médicos antroposóficos são constritos a receitar remédios de apenas um laboratório.
13 – A formação, para se tornar médico de Medicina Complementar, é universitária? São cursos públicos/institucionais ou são cursos dirigidos por escolas particulares?
Não existe no Brasil o Curso de Medicina Complementar. O que existe são alguns cursos na área. É um absurdo existirem cursos patrocinados por laboratórios como a HEEL (homotoxicologia) .
14 - Como o senhor vislumbra o futuro das MAC? Serão reconhecidas como o são hoje a Homeopatia, a Acupuntura e a Biomolecular?
Sabemos pela história que muitas terapêuticas hoje consideradas alternativas serão “redescobertas” e usadas pela medicina convencional. Este é um caminho natural do passo a passo da ciência, porém, também, acontece o inverso. Muitas vezes uma terapêutica inovadora e realmente eficaz é colocada de lado. Isto ocorre quando a droga-chave é de domínio público, isto é, não pode ser patenteada pela indústria farmacêutica e portanto de comercialização não lucrativa. Não havendo lucros, não há interesse em difundir os seus benefícios. São as chamadas “drogas órfãs”, drogas já testadas e aprovadas, porém, esquecidas, permanecendo o seu emprego apenas em focos regionais por alguns pesquisadores que executaram os trabalhos científicos iniciais
As outras práticas consideradas ainda hoje como alternativas ou complementares conseguirão o mesmo reconhecimento da Homeopatia, da Acupuntura e da Biomolecular. Entretanto, é muito importante estarmos atentos para o fato que os verdadeiros médicos, aqueles que realmente professam e cumprem sua profissão com ciência, respeito, honra, responsabilidade e arte, se preocupam com o paciente e não se a sua prática é ou não alternativa. Sendo a favor ou contra, a “medicina alternativa” e a “medicina complementar” aí estão sendo praticadas por médicos de saber éticos e merecedores de todo o nosso respeito. Chegará o dia em que todas estas terapêuticas se unirão em um só tipo de medicina, que poderemos chamar “medicina total, holística, unificada ou pura e simplesmente “MEDICINA”.
15 _ Para seus colegas que atuam neste setor na Itália, o senhor tem alguma mensagem?
“Na arte de curar, deixar de aprender é omitir socorro e retardar tratamento esperando maiores evidências científicas é ser cientista e não “MÉDICO”; e MÉDICOS que somos, não nos contentamos apenas em curar e previnir doenças: necessitamos também que o nosso paciente seja feliz”.
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