Tema do Mês de
Agosto de 2004
Metabolismo da Célula Tumoral - Câncer
como um Problema da Bioenergética Mitocondrial: Impedimento da Fosforilação
Oxidativa - Fisiopatologia e Perspectivas de Tratamento.
José de
Felippe Junior Introdução
| Histórico | Efeito
Pasteur e Crabtree | ATP
| Alteração | DNA
Mutante | NAD+ | Perspectivas
| Bibliografia
De uma maneira peculiar, as células cancerosas produzem energia preferentemente
pela glicólise anaeróbia em detrimento da fosforilação
oxidativa mitocondrial ( Warburg – 1926 ; Reitzer – 1979 ; Rossignol
– 2004 ).
Das 3 principais funções da mitocondria: 1-produção
de energia (ATP –trifosfato de adenosina) ; 2- geração
de espécies reativas tóxicas de oxigênio e 3- regulação
da morte celular programada , vamos nos ater na função bioenergética
da mitocondria.
A fosforilação oxidativa fornece energia para o citoplasma
e a glicólise anaeróbia para o núcleo. O núcleo
parece ser o compartimento mais susceptível à deficiência
de ATP, não somente nas células normais como nas células
malignas.
A perda de ATP no núcleo de células malignas possui conseqüências
drásticas provocando o impedimento de cruciais funções
celulares como a transcrição e a replicação
do DNA. Se isto acontecer, isto é, o predomínio da fosforilação
oxidativa sobre a glicólise, o que provoca a queda do ATP nuclear,
as conseqüências para o hospedeiro serão benéficas
porque a diminuição da energia para o núcleo provocará
drástica diminuição da proliferação
celular e apoptose.
De fundamental importância é a relação entre
o potencial transmembrana e a proliferação celular. Clarence
Cone, Cameron e outros mostraram que a queda do potencial transmembrana
a níveis inferiores a -15 milivolts , desencadeia a síntese
de DNA e dispara a multiplicação celular : mitose. Normalmente
o potencial transmembrana das células está ao redor de -
20 a –90mv, sendo mantido pela fosforilação oxidativa
A diminuição de produção de ATP via fosforilação
oxidativa, impede o funcionamento da bomba de Na+/K+ e despolariza a membrana
celular. Se a despolarização atingir os –15mv, dispara
um mecanismo de síntese de DNA nuclear dependente da glicólise
anaeróbia e a consequente mitose
Um grande estudioso francês do metabolismo tumoral afirma que
as células cancerosas apresentam uma grande variedade de estados
de diferenciação, indo de células altamente diferenciadas,
perto da célula parente original, com uma glicólise anaeróbia
normal e uma baixa taxa de crescimento; até células altamente
indiferenciadas com alta glicólise anaeróbia e rápida
velocidade de crescimento (Baggetto – 1992) .
As células cancerosas são metabolicamente adaptadas para
o rápido crescimento e proliferação em condições
de pH ácido e baixas tensões de oxigênio, condições
nas quais as células normais pouco cresceriam ou mesmo não
conseguiriam sobreviver (Griffts – 2001).
As recentes técnicas genômicas e proteômicas, permitiram
a análise do padrão de expressão de genes e proteínas
associados com o fenotipo de um particular tipo de tumor, proporcionando
o firme conhecimento da assim chamada “assinatura do câncer”
( Ramaswamy – 2003 ; Liotta – 2003 ).
Recentemente autores espanhóis redescobriram e confirmaram a
assinatura do câncer nos tumores humanos mais comuns: mama, pulmão,
colo-retal, fígado, rins, estômago e esôfago demonstrando
sem sombra de dúvida a existência de impedimento da fosforilação
oxidativa mitocondrial, atestada experimentalmente pela diminuição
da expressão da beta1 – F1 – ATPase nos mitocondrias
desses tumores. ( Isidoro e Cuezva – 2004 ) .
Estes estudos de 2004 mostram que a alteração da função
bioenergética da mitocondria é a pedra fundamental da carcinogenêse,
como foi escrito por Otto Warburg em 1926.
Mostraremos extensa literatura demonstrando que a célula maligna
possui um defeito mitocondrial na fosforilação oxidativa
e que este defeito pode ser reversível. E o mais importante, quando
melhoramos a função mitocondrial da célula maligna
e desviamos a produção de energia da via anaeróbia
para a fosforilação oxidativa, o tumor pára de se
proliferar e caminha para a diferenciação celular e posterior
morte celular programada ou parte diretamente para a apoptose. No final
discutiremos as perspectivas de tratamento do câncer baseados na
fisiopatologia exposta.
| Breve Histórico |
 |
Foi há quase 80 anos atrás, que
o famoso bioquímico alemão Otto Warburg enunciou uma das
mais importantes teorias sobre o desenvolvimento e crescimento do câncer
: impedimento respiratório ( Warburg,1926 ).
Warburg fez duas observações experimentais e propôs
uma hipótese. É necessário diferenciarmos a observação
da hipótese e a hipótese da intuição.
A primeira observação foi que na ausência de oxigênio
, tanto o tecido tumoral como o tecido normal, utilizam glicose e produzem
ácido lático no processo chamado de glicólise anaeróbia.
Geralmente, mas não sempre, o tecido tumoral produz mais ácido
lático que o tecido normal.
A segunda observação foi que ambos os tecidos, normal
e neoplásico, produzem menos ácido lático na presença
de oxigênio ( glicólise aeróbia ) do que na presença
de nitrogênio ( glicólise anaeróbia ). Warburg , chamou
este fenômeno de Efeito Pasteur, baseado na observação
do famoso cientista francês, na qual a levedura cessa a fermentação
quando exposta ao oxigênio .
Neste trabalho , Warburg utilizou 14 tipos de tecidos normais e 15 tipos
diferentes de tumores sólidos, de vários animais .
Estas observações são fundamentais e de relevante
importância, porém a hipótese de Warburg, logo a seguir
descrita tem mais a ver com a intuição deste magnífico
pesquisador.
Hipótese de Warburg
Transcrevemos aqui as palavras do prefácio do seu livro sobre
metabolismo tumoral ( 1926 ) :
“Enquanto que as células normais morrem se forem mantidas
em glicólise anaeróbia, as células tumorais não
somente continuam a existir, mas são capazes de crescer a uma extensão
sem limite, com a energia química proveniente da glicólise.
A glicólise anaeróbia da célula tumoral é
derivada em qualquer caso de um distúrbio da respiração.
Como regra, a respiração da célula tumoral é
pequena, mas recentemente encontrou-se tumores com respiração
elevada.
Seja a respiração tumoral pequena ou grande, a glicólise
anaeróbia está sempre presente. A respiração
está sempre perturbada e ela é incapaz de provocar o desaparecimento
da fermentação ( glicólise ) . Assim os dois tipos
de distúrbios da respiração que podem ser artificialmente
produzidos nas células normais – limitar a extensão
da respiração ou impedir o efeito da respiração
– ocorrem naturalmente nos tumores “.
Warburg concluiu que as células tumorais possuem um distúrbio
da fosforilação oxidativa mitocondrial e que são
perfeitamente viáveis e se reproduzem com a energia proveniente
quase que exclusivamente da glicólise.
Weinhouse em 1976, escreve que apesar do maciço esforço
despendido durante os 50 anos que antecedem 1976, na procura de alterações
da função ou da estrutura da mitocondria, não se
encontrou evidências substanciais que indiquem um defeito respiratório
ou da cadeia de transporte de elétrons ou do acoplamento da respiração,
na formação de ATP via fosforilação oxidativa.
Weinhouse conclui o seu trabalho, de maneira deselegante afirmando que
o impedimento da fosforilação oxidativa e o aumento da glicólise
anaeróbia é maneira muito simplista de enxergar algo de
tão complexo como o câncer.
Mal sabia o arrogante autor que a intuição do mestre era
mais forte que todo o raciocínio existente na década de
30 e toda técnica da década de 70 , porque nos últimos
20 anos com técnicas bioquímicas, ultra estruturais e genômicas
mais refinadas de estudo dos mitocondrias comprovou-se as idéias
de Warburg sobre o metabolismo energético no câncer: impedimento
da fosforilação oxidativa.
| O Efeito Pasteur e o Efeito Crabtree |
 |
As relações mútuas entre a
glicólise e a fosforilação oxidativa são refletidas
nos efeitos Pasteur e Crabtree.
O efeito Pasteur é a inibição da glicólise
pela fosforilação oxidativa ou a inibição
da fermentação pela adição de oxigênio.
Este efeito ocorre na maioria dos tecidos.
O efeito Crabtree é a inibição da fosforilação
oxidativa que ocorre quando se estimula a glicólise. Este efeito
é observado somente nos tipos de células com alta atividade
glicolítica como as leveduras e as células tumorais.
O ATP das células é derivado de duas fontes: glicólise
e fosforilação oxidativa (FO). A FO é característica
dos organismos aeróbios e fabrica 17 vezes mais ATP por mol de
glicose, do que a glicólise anaeróbia. Essas duas vias estão
localizadas em compartimentos celulares diferentes, a glicólise
no citoplasma e a FO na mitocondria, porém ambas promovem a fosforilação
do ADP pelo Pi (fósforo inorgânico), para gerar ATP.
Sussman em 1980, baseado em elegante trabalho sugeriu que tanto o fluxo
glicolítico como a velocidade respiratória, são regulados
primariamente pela relação ATP/ADP x Pi , existente no citoplasma
, por mecanismos bem diferentes.
A FO é regulada pela energia livre da hidrólise do ATP.
Assim a FO aumenta se a relação ATP/ADP x Pi diminui e a
FO diminui se a relação ATP/ADP x Pi aumenta.
As enzimas reguladoras da glicólise são ativadas pelo
ADP , AMP e o Pi e inibida pelo ATP. Assim a glicólise aumenta
se a relação ATP/ADP x Pi , diminui e a glicólise
diminui se a relação ATP/ADP x Pi , aumenta..
O papel do fósforo inorgânico (Pi) intracelular como variável
independente pode ser assim entendido.
Quando a concentração intracelular de Pi cai a níveis
muito baixos (1 milimol) a utilização celular de ATP torna-se
severamente inibida, aumentando o ATP disponível o que leva a um
grande aumento da relação ATP/ADP x Pi , por alteraçào
no numerador e denominador, com a conseqüente inibição
de ambas as vias produtoras de ATP, glicólise e FO. Essa depleção
tão severa raramente ocorre em clínica.
Quando a concentração de Pi intracelular está elevada,
ela estimula a velocidade de utilização do ATP . Quando
o Pi intracelular é alto os níveis de ATP são baixos
e coexistem com glicólise e FO elevados.
É muito importante sabermos para onde vai o ATP produzido pela
glicólise anaeróbia e pela fosforilação oxidativa.
| O ATP Gerado pela Glicólise e pela Fosforilação
Oxidativa Alimentam Compartimentos Intracelulares Diferentes : A Glicólise
Anaeróbia é o Motor da Mitose porque Fornece Energia para o Núcleo |
 |
Mesmo com os parcos recursos da década
de 30, Dickens e Simer analisando o quociente respiratório de células
cancerosas e células normais foram capazes de verificar que a energia
para o crescimento do câncer era proveniente da glicólise
anaeróbia e que não havia relação entre o
crescimento tumoral e a glicólise aeróbia.
Hopkins e Elliott em 1931 e posteriormente Needham e Lehmann em 1937,
demonstraram que as primeiras mitoses de um embrião apenas necessitam
da energia proveniente da glicólise anaeróbia e isto somente
acontece na presença da glutationa reduzida (GSH).
Estas foram as primeiras evidências que mostraram em biologia
que o motor da mitose é o ATP produzido pela via anaeróbia.
Todos estes trabalhos pioneiros foram confirmados recentemente.
Nos últimos 20 anos foi proposto que os compostos de alta energia
são compartimentalizados nas células ( Erickson –
Viitanen –1982a e 1982b, Saks –1994 ).
Em 2003, Carl Gajewski e colaboradores, da Universidade de Cornell nos
lembraram novamente que os compostos de alta energia, como o ATP, são
compartimentalizados dentro das células e as diferentes funções
celulares são mantidas por diferentes “pools” de ATP.
Parte deste ATP deriva da fosforilação oxidativa (F.O.)
mitocondrial e o restante é proveniente da glicólise.
Desta forma uma disfunção da F.O. afeta diferentes compartimentos
celulares em graus também diferentes.
Com a utilização dos substratos da glicólise, tanto
as células com mitocondria normal (“wild”) como as
células com mitocondria mutante, mantém o suprimento adequado
de ATP para os principais compartimentos celulares: citoplasma, região
sub plasmática da membrana, mitocondria e núcleo. Pelo contrário,
com a utilização dos substratos da F.O. (neste trabalho
, o piruvato) temos duas situações diferentes. Nas células
mutantes., os níveis de ATP diminuem no núcleo e em todos
os outros compartimentos e nas células normais os níveis
de ATP se mantém no citosol e na região subplasmática
da membrana entretanto, surpreendentemente também diminuem drasticamente
no núcleo.
A severa diminuição do ATP nuclear sob “somente
fosforilação oxidativa”, implica que a deficiência
nuclear de ATP desempenha papel importante e não apreciado em
pacientes com disfunção mitocondrial como acontece no
envelhecimento, doenças degenerativas e câncer.
Desta maneira, a distribuição do ATP não é
uniforme nos compartimentos celulares, sugerindo que a partição
das moléculas fosforiladas de alta energia na célula não
ocorrem por difusão do ATP simplesmente obedecendo a gradientes
de concentração.
Em células com mitocondrias normais ( não mutante ) quando
a F.O. mitocondrial é a única fonte de energia, o ATP é
exportado preferencialmente da mitocondria para o citosol e membrana subplasmática
e não fornece energia para a mitose (núcleo) .
Em condições de fosforilação oxidativa ,
particularmente quando o suprimento de ATP se torna limitado, o núcleo
parece ser o compartimento mais susceptível à deficiência
de ATP , não somente nas células mutantes como também
nas células normais ( “wild” ) .
A perda de ATP no núcleo destas células possui conseqüências
drásticas, resultando no impedimento de cruciais funções
celulares , como a transcrição e a replicação
do DNA.
Se isto acontecer em uma célula maligna, isto é, o predomínio
da F.O. sobre a glicólise, as conseqüências serão
benéficas para o hospedeiro pois, a diminuição de
energia para o núcleo provocará drástica diminuição
da proliferação celular e apoptose.
| Alteração da Função e da Estrutura na Mitocondria
Tumoral |
 |
As células malignas apresentam várias
alterações estruturais e de função mitocondrial
, o que acarreta a diminuição da produção
de ATP, via fosforilação oxidativa (F.O.)
- diminuição da liberação de Ca++ induzido
por hidroperóxidos ou drogas desacopladoras ( Fiskum and Cockrell-1985
, Fiskum and Pease- 1986 )
- diminuição do efluxo de citratro do Ciclo de Krebs
( Moreadith - 1984 , Parlo – 1984 )
- diminuição da troca ATP – ADP ( Eboli - 1979
, Barbour – 1983 , Lau and Chan - 1984 )
- diminuição da atividade da ATPase ( Pedersen –
1979 , Luciakoya – 1984 , Papa - 1988 , Chernyak – 1991
)
- altos níveis de algumas enzimas , tais como glutaminase (
Kovacevic – 1972 , Abou-Khalil – 1981 , Kovacevic –1991
) e enzima málica ( Sauer –1978 , Moreadith –1984
)
- aumento da expressão da síntese de acetoina ( Baggeto
and Lehninger – 1987 , Baggeto and Testa-Perussini – 1990
)
- diminuição do número de mitocondrias ( Cuezva
– 2002)
- alterações da ultra estrutura mitocondrial ( Springer
– 1980; Hoberman – 1975; Arcos - 1971 )
- diminuição do conteúdo dos complexos da F.O.
( Cuezva – 2002 ; Simonnet - 2002 ; Irwin – 1978 ; Senior
– 1975 ; Stocco – 1980 )
- diminuição da atividade da cadeia respiratória
( Stocco-1980 ; Boitier – 1995 )
- diminuição da expressão de genes dependentes
da F.O. ( Weber – 2002 )
- diminuição da quantidade de DNA mitocondrial ( Simonnet
– 2002 )
- alteração ultraestrutural da cadeia de transporte de
elétrons com escape de elétrons (Arcos – 1971)
- diminuição da expressão de uma subunidade beta
catalítica da H+ - ATP sintase a Beta1 – F1 – ATPase
( Isidoro e Cuezva – 2004 ; Cuezva – 2002 )
Altas concentrações de cálcio inibem tanto a fosforilação
oxidativa das mitocondrias tumorais como a das mitocondrias normais. Concentrações
micromolares de cálcio ionico possuem efeitos de estimulação
em ambos os tipos de células, embora quantitativamente diferentes.
Arcos em 1971, sugere a alteração ultraestrutural da cadeia
de transporte de elétrons com escape de elétrons como uma
das explicações do “impedimento respiratório”
de certos tumores. Inicialmente acontece considerável alteração
ou mesmo a deleção do sistema efetor mecano - químico,
responsável pelo inchaço e contração da mitocondria.
O sistema efetor localizado na membrana está ligado à cadeia
respiratória em uma posição adjacente à seqüência
do acoplamento responsável pela fosforilação.
A seqüência de enzimas respiratórias que se localizam
na membrana interna mitocondrial estão cobertas por lípides
para isolar o transporte de elétrons da fase aquosa e evitar ”curto-circuito”
e este sistema efetor mecano - químico pode sofrer “lesão”
devido às alterações metabólicas dos ácidos
graxos, fosfolípides e colesterol, componentes desta membrana interna.
Arcos propõe que por causa do escape de elétrons através
desta “lesão”, uma porção do fluxo de
elétrons resultante da dehidrogenação do substrato
não consegue alcançar o aceptor terminal, o oxigênio,
desta forma mesmo que a velocidade de dehidrogenação possa
permanecer inalterada, temos uma diminuição da velocidade
respiratória.
Está bem estabelecido que o transporte de elétrons, o
inchaço – contração da mitocondria e a fosforilação
oxidativa são processos intimamente relacionados.
A mudança de volume mitocondrial pode ser passiva ou ativa. Nas
mudanças passivas o volume simplesmente responde à osmolaridade
do meio. Na forma ativa o inchaço depende do transporte de elétrons
e ocorre com os “indutores de inchaço” : Ca++, Hg++,
PO 4 - - - , tiroxina e hidrocortisona. O inchaço ativo é
acompanhado pela queda do “pool” de ATP. Pelo contrário,
na presença de Mg++ , aumenta o “pool” de ATP, o que
contrai a mitocondria inchada.
Na mitocondria tumoral o sistema efetor mecano – químico
está ausente ou alterado gravemente, o que é indicado pela
considerável perda da habilidade desta mitocondria inchar sob o
efeito de diferentes indutores ou contrair pelo ATP-Mg++ (Arcos –
1969a e 1969b) e também pela inabilidade de se observar ao microscópio
eletrônico as transições ultra estruturais dependentes
do estado respiratório.
A perda de função do sistema efetor mecano – químico
ligado à cadeia de transporte de elétrons é devida
à quebra da arquitetura do sistema transdutor de energia. Esta
arquitetura da membrana interna mitocondrial é formada por camadas
de lípides que isolam a seqüência de enzimas respiratórias
da fase aquosa.
Sabemos muito bem das consideráveis alterações
do metabolismo dos ácidos graxos, fosfolípides e colesterol
que ocorrem na célula tumoral (Busch – 1964 ; Carruthers
– 1967). Quando acontece alterações lipídicas
na membrana interna mitocondrial a sua produção de energia
diminui . Vários trabalhos indicam que drásticas modificações
da ingestão de lípides da dieta, como o deficit de ácidos
graxos polinsaturados provocam alterações ultra estruturais
e prejuízo da função mitocondrial (Johnson –
1963 ; Waite & Van Golde – 1968 ; Smithson – 1969) .
A possível existência de lesões ultra estruturais
da cadeia de transporte de elétrons nos quais os transportadores
são expostos à fase aquosa, fez surgir a hipótese
do “curto – circuito” de Green, Mackler, Repaske e Mahler
em 1954.
Como a quebra da arquitetura que envolve a região do sistema
efetor mecano – químico poupa o sistema de acoplamento, mitocondrias
tumorais podem apresentar consumo de oxigênio normal ou levemente
diminuído, coexistindo com a diminuição de produção
de ATP.
Uma vez que a perda da habilidade do inchaço – contração
mitocondrial, considerado como instrumental na glicólise aeróbia
das células tumorais, parece ser um fator constante de todas as
mitocondrias tumorais analisadas, é possível que a maioria
dos tumores apresente “lesão” da camada lipídica
isolante (Arcon – 1971).
O mais interessante para nós clínicos foi que Arcos mostrou
que esta região mitocondrial lesada é susceptível
de reparo nos seres humanos porque o impedimento respiratório,
in vitro, é substancialmente diminuído ou até abolido
pela adição de lípides totais, obtidos de mitocondrias
normais ( Arcos – 1971).
Possivelmente esta sopa lipídica extraída de mitocondrias
normais esteja “contaminada” com vit.B2, vitB3, Coenzima Q10
, carnitina, etc , isto é, com os fatores envolvidos no adequado
funcionamento da mitocondria.
Quanto aos elétrons que escapam da cadeia respiratória,
eles podem ser capturados pelas estruturas vizinhas produzindo espécies
moleculares com elétrons não pareados na camada de valência
: radicais livres. De fato Vithayathil em 1965, notou o aparecimento de
radicais livres no fígado durante a administração
de agentes carcinogênicos . Surge aqui a seguinte seqüência
de eventos : o carcinogênico lesa a membrana mitocondrial , provoca
escape de elétrons, os quais aumentam a geração de
radicais livres que vão lesar o DNA, é o que denominamos
de fase de inicialização do câncer. A lesão
do mitocondria diminuindo a fosforilação oxidativa faz surgir
o predomínio da glicólise aneróbia, motor da mitose
: proliferação celular maligna.
carcinógeno químico---- lesão de ------> escape
de elétrons --> Radicais -----> lesão DNA
vírus----------------------- membrana livres
agente físico-------------- mitocondrial -------> diminuição
da F.O. ----> proliferação celular
A H+ - ATPsintase é o complexo proteico mitocondrial responsável
pela maravilhosa engenharia de produção de ATP ( Yoshida
– 2001 ) e também pela eficiente execução da
morte celular programada ( Harris – 2000 ; Dey – 2000 ; Matsuyama
– 1998 ).
Em 2002 , José Cuezva da Universidade de Madri observou a diminuição
da expressão de uma sub unidade beta catalítica mitocondrial
da H+ - ATPsintase a beta1 – F1 – ATPase no carcinoma de fígado,
rim e colo-retal, indicando a existência de uma assinatura bioenergética
do câncer, já visualizada por Warburg em 1926.
Em 2004, Isidoro e Cuezva, analisaram marcadores da glicólise
e da mitocondria em outros tipos de câncer: adenocarcinoma de mama,
estômago e próstata; carcinoma de pulmão e carcinoma
epidermoide de esôfago. Quando comparado com os tecidos normais
correspondentes, os autores encontraram significante diferença
na expressão dos marcadores glicolíticos e mitocondriais
em todos esses tipos de câncer exceto no de próstata.
De um modo geral a expressão da beta1 – F1- ATPase estava
significantemente reduzida no adenocarcinoma de mama e gástrico,
no carcinoma de pulmão e no carcinoma epidermoide de esôfago,
sugerindo fortemente que a alteração da função
bioenergética da mitocondria é a pedra fundamental nestes
tipos de câncer.
Desta forma os autores conseguiram demonstrar um marcador molecular
da carcinogênese, operando nos tumores malignos humanos mais comuns
: mama, pulmão, colo-retal, fígado, estômago, rins
e esôfago.
A conseqüência metabólica do impedimento mitocondrial
é o desvio de produção de ATP celular via glicólise
anaeróbia. De fato foi observado pelos mesmos autores o aumento
de dois marcadores da glicólise anaeróbia, o GAPDH (gliceraldeido-fosfato-dehidrogenase)
no câncer de mama, pulmão, colo-retal, gástrico e
rins e o PK ( piruvato kinase ) nos tumores de mama.
Será descrito mais adiante que é a via glicolítica
que fornece ATP para o núcleo, sendo portanto a responsável
pela síntese de DNA nuclear e portanto ela é considerada
como o “motor da mitose” : proliferação celular
maligna.
A descoberta da diminuição da expressão da beta1
– F1- ATPase na maioria dos tumores humanos nos mostra o papel da
verdadeira contribuição do impedimento da fosforilação
oxidativa mitocondrial na carcinogênese humana.
| Presença de DNA Mutante na Mitocondria Tumoral |
 |
Mutações somáticas do DNA
mitocondrial (mtDNA), foram identificadas em vários tumores humanos
e linhagens de células malignas.
Estas mutações incluem:
- deleções intragênicas ( Horton- 1996 )
- erros na cadeia terminal ( Polyak – 1998 )
- alterações nas seqüências homopoliméricas
( Habano – 1998 ) células tumorais.
Em princípio essas mutações podem diminuir a produção
de ATP , via fosforilação oxidativa e contribuir para a
transformação neoplásica. Elas também podem
provocar um aumento do estresse oxidativo mitocondrial e a modulação
da apoptose.
| NAD+ (nicotinamida adenina dinucleotido oxidado)
e a Fosforilação Oxidativa |
 |
A baixa captação de oxigênio
pela mitocondria tem sido atribuída à deficiência
de NAD+ e vários trabalhos têm mostrado que a oxidação
do piruvato e dos substratos do ciclo do ácido cítrico são
aumentadas pela adição de NAD+ ( Wenner and Weinhouse –
1953 ; Hawtrey and Silk – 1960 ) .
Quando os níveis de NAD+ (nicotinamida adenina dinucleotídeo
oxidado ou piridino nucleotídeo oxidado) caem na célula,
o metabolismo torna-se dependente de enzimas da glicólise anaeróbia,
GAPDH (gliceraldeido 3-fosfato dehidrogenase) e outras dehidrogenasess
contendo piridino nucleotídeos .
A perda de NAD+ mitocondrial na presença de NAD glicohidrolases
ativas, provocam o aumento da glicólise anaeróbia e o aumento
da acidez intracelular, por aumento de ácido lático. A transformação
de ácido lático em piruvato requer a presença de
NAD+ como cofator essencial.
O NAD+ é também cofator essencial da piruvato-dehidrogenase,
isocitrato-dehidrogenase e alfacetoglutarato-dehidrogenase, enzimas do
ciclo de Krebs.
O aumento da glicólise anaeróbia, freqüentemente
associada com os tumores em fase de franco crescimento, pode ser causada
em parte pela combinação do defeito mitocondrial e em parte
pelos efeitos depletores do NAD+ provocados pela ativação
das NAD glicohidrolases ou das poli ADP-ribose polimerases.
Trabalhos que mostram diminuição do NAD+ nos tumores
:
A diminuição do NAD+ intracelular observado nas células
em proliferação maligna tem sido há muito tempo bem
documentada (Von Euler-1938 , Bernheim-1940 , Kensler-1940 , Taylor-1942
, Schlenk-1946 , Carruthers-1953 , Strength-1954 , Jedeikin-1955 , Jedeikin-1956
, Narurkar-1957 , Glock-1957, Briggs-1960 , Wintzerith-1961 , Clark-1966).
Estes trabalhos experimentais foram confirmados por pesquisadores clínicos,
que encontraram diminuição dos níveis de NAD em pacientes
com vários tipos de câncer.
Comes em 1976, dosou o NAD no sangue de 188 pacientes com câncer.
O NAD estava significantemente diminuído nos pacientes com carcinoma
de mama e de cervix e inalterado nos pacientes com câncer de pulmão
e câncer metastático, quando comparado com pessoas normais.
Chung em 1982, mostrou a associação entre a carcinogênese
humana e a diminuição do NAD celular, assinalando as seguintes
evidências: 1- as concentrações de NAD e ATP estão
baixas nas células com câncer ; 2- os carcinogênicos
químicos e a radiação podem provocar a queda do NAD
em células pré cancerosas; 3-o NAD está envolvido
na regulação da síntese do DNA e 4-a queda da concentração
do NAD facilita a carcinogênese porque, pode provocar a expressão
de oncogenes e ou virogenes, de acordo com a hipótese do protovírus
.
| Perspectivas de Tratamento |
 |
I- Substrato Energético Adequado Normaliza
a Estrutura Mitocondrial e a sua Capacidade de Fosforilação
Oxidativa nas Células Cancerosas
A análise comparativa de organelas citoplasmáticas de
uma grande variedade de tumores em relação ao tecido normal
correspondente revela uma forte diminuição do conteúdo
mitocondrial e da capacidade de fosforilação oxidativa (
Rossignol – 2004 ). Entretanto não sabemos a causa destas
modificações e se o processo pode ser fisiologicamente reversível.
Rossignol, elegantemente demonstrou, em uma linhagem de câncer
humano (células HeLa), que a diminuição da fosforilação
oxidativa ( F.O. ) pode ser provocada pela carência de substrato.
A F.O. foi medida in vivo através de vários tipos de técnicas
e o objetivo do autor, foi estudar: 1- a habilidade da célula usar
a glicólise ou a F.O. de acordo com o substrato e 2- o efeito do
tipo de substrato sobre a estrutura e função da mitocondria.
Rossignol mostrou algo de inusitado: o sistema mitocondrial defeituoso
existente nas células cancerosas pode ser dramaticamente melhorado
unicamente pela mudança de substrato, isto é, o fenômeno
é reversível do ponto de vista estrutural e funcional. E
mais importante ainda a mudança de metabolismo anaeróbio
para aeróbio ( F.O. ), promovida pela disponibilidade do substrato
apropriado, promoveu a diferenciação da célula
maligna em células não tumorais.
Na verdade o autor não deu importância, mas descreveu com
todas as letras que após a adição do substrato glutamina
e a passagem do metabolismo anaeróbio para quase exclusivamente
fosforilação oxidativa : “as células
em cultura não mais se assemelhavam às células tumorais”
. Desta forma o autor demonstrou que a mudança da via de produção
de ATP de glicólise anaeróbia para fosforilação
oxidativa, provocou a diferenciação celular : passagem da
célula maligna para célula normal.
Nas células HeLa, o substrato que modifica a estrutura e função
da mitocondria tumoral , é a glutamina.
Este trabalho abre as portas na busca do substrato apropriado para melhorar
a função mitocondrial de cada tipo de célula maligna
com a finalidade de provocar o desvio da produção de ATP
via glicólise anaeróbia, motora da proliferação
maligna, para a fosforilação oxidativa, motora da diferenciação
celular.
II- Nutrientes Essenciais Constituintes da Cadeia Enzimática
e do Acoplamento Químio–Energético Melhoram a Função
Mitocondrial em Mitocondriopatias Hereditárias
Barbara Marriage da Universidade de Alberta no Canadá em 2003,
fez revisão didática sobre o papel dos nutrientes essenciais
na melhoria da função mitocondrial de vários tipos
de mitocondriopatias que apresentavam defeitos da fosforilação
oxidativa.
Mostrou 18 trabalhos na literatura descrevendo pacientes com mitocondriopatias
hereditárias com defeitos nos complexos I ou II ou III que obtiveram
melhoria clínica de graus variáveis com o emprego da Coenzima
Q10 ( ubiquinona. ). Esta substância é a mais empregada no
tratamento das mitocondriopatias hereditárias , nas doses de 30
a 300 mg ao dia.
A CoQ10 é uma quinona liposolúvel que transfere elétrons
dos complexos I e II para o complexo III, processo este acoplado com a
síntese de ATP. Ela ajuda a estabilizar os complexos da FO dentro
da membrana mitocondrial interna, mantendo uma adequada fluidez de membrana.
Parta aumentar a eficácia terapêutica se emprega vários
tipos de nutrientes que tomam parte na F.O. : Riboflavina (50 a 100 mg
ao dia), Nicotinamida ( 200 a 3000 mg ao dia ) , Vitamina K3 – menadiona
( 40 a 80 mg ao dia ) , Vitamina C ( 2 a 4 gramas ao dia ), Carnitina
( 50 a 200 mg ao dia ) , Creatina ( 10 g ao dia ) e Ácido Lipóico
(600 mg ao dia ).
III - Administração de Nicotinamida e Recuperação
da Fosforilação Oxidativa em Células Malignas
Os níveis tissulares dos NAD ( NAD+ , NADH , NADP+ , NADPH ) ,
são regulados primariamente pela concentração de
nicotinamida do sangue, que por sua vez é regulada pelo fígado,
sob influência hormonal.
Jacobson em 1993, verificou que mulheres com vários tipos de câncer
apresentavam níveis menores de NAD no sangue, quando comparado
com controles normais. Quando o aporte de nicotinamida da dieta diminuiu,
o NAD prontamente declinou no intracelular.
A mitocondria intacta é relativamente impermeável aos
nicotinamida adenina dinucleotídeos, porém pode se tornar
permeável em vários graus e perder NAD+. Nesta linha de
raciocínio, Kielley-1952, Wenner e Weinhouse-1953 e Hawtrey-1960,
mostraram que a mitocondria isolada de diversos tumores são deficientes
na sua capacidade oxidativa, porém a respiração normal
pode ser restaurada pela suplementação com NAD+ .
Esses trabalhos sugerem que as mitocondrias dos tumores não são
integras e que prontamente podem perder ou ganhar o seu suprimento de
NAD+. Desta forma, as mitocondrias de diversos tumores perdem NAD+ , porém
o processo é reversível. Este fato é mais uma evidência
que nos faz acreditar na possibilidade de recuperação da
célula maligna: diferenciação celular. Uma vez diferenciada
as células seguirão o seu caminho biológico normal
: morte celular programada.
As doses habituais de nicotinamida nestas condições são
de 1000 mg ao dia. Dose diária de até 3000 mg de nicotinamida
por alguns anos são seguras e não provocam hepatopatia.
IV- Reparo da Membrana Mitocondrial Interna com Lipides
Sabemos muito bem das consideráveis alterações
do metabolismo dos ácidos graxos, fosfolípides e colesterol
que ocorrem na célula tumoral (Busch – 1964; Carruthers –
1967). Quando acontece alterações lipídicas na membrana
interna mitocondrial a produção de energia diminui. Vários
trabalhos indicam que drásticas modificações da ingestão
de lípides da dieta, como o deficit de ácidos graxos polinsaturados,
provocam alterações ultra estruturais e prejuízo
da função mitocondrial (Johnson – 1963; Waite &
Van Golde–1968 ; Smithson – 1969) .
Arcos mostrou que esta região lesada da membrana mitocondrial
interna pode ser susceptível de reparo porque o impedimento respiratório,
in vitro, é substancialmente diminuído ou até abolido
pela adição de lípides totais, obtidos de mitocondrias
normais (Arcos–1971).
Possivelmente esta sopa lipídica extraída de mitocondrias
normais esteja “contaminada” com vit.B2, vitB3, Coenzima Q10
, carnitina, etc , isto é, com os fatores envolvidos no adequado
funcionamento da mitocondria.
No interior de São Paulo, alguns cancerologistas estão
utilizando um lípide apolar, sintetizado no setor de Química
da Universidade de São Carlos (USP), a fosfoetanolamina, como tratamento
coadjuvante do câncer. Embora sem estatísticas, os resultados
tem sido muito encorajadores e em alguns casos realmente surpreendentes.
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José de Felippe Junior
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