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Dr. José de Felippe Junior
“Dicloroacetato : droga antiga pronta para tratar doença mais antiga ainda”
“Deixar de aprender é omitir socorro”
“Esperar por maiores evidências científicas, diante de medicamentos sem efeitos colaterais, é ser cientista e não médico”
“É do médico a responsabilidade do paciente”
O dicloroacetato (DCA) foi descoberto por Whitehouse e Randle em 1973 e tem sido utilizado em clínica no últimos 30 anos para tratar a acidose lática e algumas mitocondriopatias hereditárias (Aynsley-Green-1984 , Stacpoole 1988-2003-2006 , De Vivo-1990).
O DCA já foi empregado no tratamento de várias doenças metabólicas, cardiovasculares e cerebrovasculares (Stacpoole-1983-1998 , Wargovich-1988 , Wilson-1988 , Bersin-1994 , Fox-1996 , Shangraw-1994-1998-1999). Na dose de 25 a 100 mg/kg por via oral foi usado no diabetes mellitus (Stacpoole-1978) , na hiperlipoproteinemia (Stacpoole-1978 , Shangraw-1996) e na acidose lática (Kuroda-1986 , Stacpoole-1988 , Toth-1993 , Krishna-1994). Até 2003 encontravam-se na literatura médica 40 artigos que descreviam os efeitos do DCA no tratamento da acidose lática em seres humanos: vide trabalho de revisão escrito por um dos pesquisadores que mais estudou o assunto: Stacpoole -2003.
O DCA é uma pequena molécula , Cl 2 CH COOH : ácido dicloroacético sendo o sal sódico o mais empregado em clínica: Cl 2 CH COONa . Ele é biotransformado em glioxalato pela glutationa-S-transferase, enzima chave do catabolismo da tirosina (in Stacpoole-2003).
Breve lembrança metabólica
Um dos pesquisadores mais expressivos da Alemanha, Otto Heinrich Warburg em 1926 intuiu que no câncer a alteração de função da mitocôndria provoca a mudança da geração de energia da fosforilação oxidativa para glicólise anaeróbia e afirmou objetivamente que esta é uma característica das células malignas da maioria dos cânceres humanos. É o que se chama de fenótipo metabólico característico do câncer: fenótipo de Warburg. Recentemente com a tomografia por emissão de positrons utilizando a fluor-deoxiglicose (PET-scan FDG) demonstrou-se mais uma vez que as células malignas possuem alta captação de glicose e metabolismo anaeróbio.
Este fenótipo metabólico com aumento da glicólise anaeróbia confere maior resistência das células à apoptose (Plas- 2002). Muitas enzimas da via glicolítica inibem a apoptose e já foram descritas várias oncoproteínas que induzem a expressão das enzimas glicolíticas (Kim -2005). Acresce que o aumento de produção de ácido lático pela via glicolítica provoca acidose local o que contribui para a degradação da matrix extracelular facilitando a mobilidade celular e a conseqüente invasão local (propagação) e geral (metástases).
Para Felippe Jr. estas oncoproteínas são na verdade proteínas de sobrevivência celular. São as mesmas que as células normais utilizaram na evolução para se manterem vivas diante das adversidades químicas e físicas internas e externas e como a célula maligna é carne da nossa própria carne ela utiliza todos os recursos biológicos para sobreviverem a qualquer custo.
Ao entrar na célula a glicose segue a via da glicólise anaeróbia e no final temos a formação de ácido pirúvico. A partir deste ponto o ácido pirúvico pode tomar dois caminhos dependendo do estado de uma enzima chave: a dehidrogenase pirúvica (PDH).
Se a PDH estiver inativa o ácido pirúvico continua pela via anaeróbia e se transforma em ácido lático no citoplasma.
Se a PDH estiver ativa o ácido pirúvico segue a via da fosforilação oxidativa penetra na mitocôndria e se transforma em acetil - coenzima A (acetil-CoA).
A acetil-CoA nutre o ciclo de Krebs que produz NADH e FADH2. O NADH doa elétrons para o complexo I da cadeia de transporte de elétrons mitocondrial e o FADH2 doa elétrons para o complexo III. O fluxo de elétrons pela cadeia de transporte mitocondrial é responsável por dois fenômenos vitais, um é a produção de radicais livres de oxigênio, que regula algumas atividades das células e outro é o fluxo de prótons (H+) , que provoca a negatividade do potencial transmembrana mitocondrial . A enzima F1F0-ATPsintase utiliza a energia guardada neste potencial de membrana negativo para produzir ATP.
A enzima chave, piruvato dehidrogenase (PDH) que abre as portas das mitocôndrias para a fosforilação oxidativa é regulada momento a momento por duas enzimas : uma ativadora a PDH fosfatase que promove a defosforilação da PDH e outra inibidora a PDH kinase que promove a fosforilação da PDH .
O dicloroacetato é um inibidor bem conhecido e muito estudado da PDH kinase (Bowker-1998 , Stacpoole-1989 , Knoechel-2006). A inibição da PDH kinase permite que somente as forças de ativação da PDH prevaleçam e assim o DCA abre as portas para a fosforilação oxidativa a qual inibe a glicólise anaeróbia brecando o motor da proliferação celular maligna.
Devemos ter em mente que a negatividade do potencial transmembrana mitocondrial reflete a normalidade da cadeia de transporte de elétrons com a conseqüente boa função das mitocôndrias na produção de ATP.
Entretanto, as mitocôndrias não são importantes apenas na produção eficaz de energia, este parasita pré histórico e amigo também controla o equilíbrio das reações de oxi-redução, a concentração de cálcio intracelular e a morte celular programada (apoptose). É importante sabermos que a apoptose é um modo discreto das células morrerem sem fazer alarde, digo inflamação. Provocar apoptose em paciente com câncer grau IV não faz piorar o seu estado geral já tão comprometido.
Através da produção de radicais livres de oxigênio (ROS) a mitocôndria regula a abertura de canais iônicos da membrana celular e através do controle da concentração de cálcio intracelular regula os fatores de transcrição nucleares e proliferativos dependentes de cálcio.
Quanto aos canais iônicos, a inibição dos canais de K+ provoca aumento do K+ intracelular porque diminui o seu efluxo a favor do gradiente intracelular / extracelular : 145/5 mEq/l.
O K+ intracelular é um dos fatores de sobrevivência das células, porque o seu aumento inibe as caspases , o que inibe a apoptose: permite a célula continuar viva e se reproduzindo.
A inibição do canal de K+ com aumento do K+ intracelular inibe a apoptose de vários tipos de células como os neurônios (protege os neurônios da neurodegeneração) e também inibe a apoptose em vários tipos de câncer (protege as células malignas): (Yu – 1997 , Wang-2002 , Remillard – 2004 , Anderson – 2006).
A família de canais de K+ é voltagem dependente (Kv) e portanto redox sensível e assim pode ser regulada pela mitocôndria. Por exemplo, o peróxido de hidrogênio (H2O2) produzido pela mitocôndria é capaz de ativar o canal Kv1,5 , aumentar o efluxo de K+, diminuir o K+ intracelular e conseqüentemente tornar a célula mais vulnerável à apoptose (Caouette-2003). O citocromo-c, agente pró apoptótico mitocondrial ativa o canal Kv1,5 e o bcl-2 , agente anti apoptótico inibe o canal Kv1,5 (Remillard- 2004).
Michelakis em 2002 e 2004 descreveu a importância do eixo:
ROS-mitocondrial---Canal Kv-membrana celular como mecanismo O2-sensível em muitos tecidos (ROS : espécies reativas de oxigênio).
Comparando células normais com células cancerosas este criativo pesquisador canadense observou que as células malignas possuíam mitocondrias hiperpolarizadas e eram deficientes em canais Kv. Assim sendo Michelakis ponderou : se esta remodelação metabólica-elétrica no câncer é uma resposta adaptativa, a sua reversão pode aumentar a apoptose e inibir o crescimento tumoral. Realmente foi o que ele demonstrou in vitro e in vivo empregando o dicloroacetato de sódio (DCA).
Recentemente foi demonstrado que o DCA é capaz de reverter as alterações elétricas e metabólicas encontradas em vários tipos de câncer humano, tais como a hiperpolarização da membrana mitocondrial , a ativação do NFAT1 e a baixa expressão dos canais de K+ - Kv 1.5 provocando drástica apoptose e culminando na diminuição do crescimento tumoral (NFAT1 : fator nuclear de ativação dos linfócitos T).
Estes efeitos que acontecem tanto in vitro como in vivo foram demonstrados por Evangelos Michelakis e colaboradores e publicados em janeiro de 2007 (Bonnet S , Michelakis ED-2007) e a seguir resumidos:
As mitocôndrias no câncer são hiperpolarizadas e têm baixa fosforilação oxidativa e ambas alterações são revertidas pelo DCA
Foi estudado o potencial transmembrana mitocondrial (PTM) em três linhagens de células malignas humanas: A549 (câncer de pulmão de células não pequenas), M059K (glioblastoma) e MCF-7 (câncer de mama) e comparadas com três linhagens de células não cancerosas também humanas: células epiteliais de vias aéreas , fibroblastos e músculo liso de artéria pulmonar.
Todas células malignas possuiam mitocôndrias significantemente hiperpolarizadas (alto PTM) quando comparadas com as células normais. A incubação com DCA por 48 horas reverte o estado hiperpolarizado das três linhagens malignas, isto é, os valores do PTM diminuem e retornam aos valores normais. Estes efeitos ocorrem já aos 5 minutos e são dose dependentes. O DCA não altera o PTM das células normais.
O DCA aumenta significantemente (+23%) a oxidação da glicose com a concomitante redução da glicólise anaeróbia e da oxidação dos ácidos graxos.
Como esperado do DCA, que muda a via metabólica de glicólise anaeróbia para fosforilação oxidativa, observou-se queda da produção de ácido lático.
O DCA provoca aumento da produção de radicais livres de oxigênio (ROS) e efluxo de fatores pró apoptóticos das mitocôndrias para o citoplasma
Nas células malignas do pulmão não tratadas os fatores apoptóticos citocromo-c e fator indutor da apoptose (AIF) encontram-se restritos ao mitocôndria , enquanto que tais células quando tratadas com DCA mostram o citocromo-c difusamente espalhado pelo citoplasma e o AIF transferido (translocado) para o núcleo. Estas alterações indicam indução da apoptose.
O DCA aumenta a produção de H2O2 mitocondrial de um modo dose dependente via complexo I da cadeia de transporte de elétrons.
O DCA aumenta a produção intramitocondrial de NADH, reflexo do maior aporte de acetil-CoA ao ciclo de Krebs.
O DCA ativa os canais Kv da membrana celular das células malignas por mecanismo dependente do H2O2
Nas células malignas não tratadas a corrente de K+ para fora da célula é pequena e independente da voltagem. O DCA nas células malignas aumenta significantemente a corrente de K+ para fora da célula de um modo dependente da voltagem (canais Kv) aumentando o potencial transmembrana (EM) da membrana celular. O aumento do potencial EM acima de menos15 mv e caminhando para a normalidade faz cessar a proliferação celular mitótica.
A ativação dos canais Kv pelo DCA provoca diminuição do K+ intracelular devido o efluxo do K+ contra o gradiente de concentração o que torna a célula maligna mais vulnerável à apoptose.
Não ocorre alteração do fluxo de K+ nas células normais com ou sem o DCA.
O DCA diminui o Ca++ intracelular e aumenta a expressão dos canais Kv1,5 via inibição do NFAT1
Preussat em 2003 encontrou em células do glioma humano menor quantidade de canais de K+ Kv1,5 e conseguiu correlacionar a sua presença com a gravidade do tumor, isto é quanto maior o grau de malignidade do glioma menor a expressão dos canais Kv1,5. Não houve correlação com outros canais de K+.
Em células não pequenas de tumor pulmonar o DCA aumenta significantemente a expressão dos canais Kv1,5. Em espécimes cirúrgicos de 30 pacientes com tumor pulmonar de células não pequenas também observou-se a correlação encontrada nos gliomas , isto é, quanto maior a malignidade menor a expressão dos canais Kv1,5.
A survivina é uma proteína marcadora da resistência tumoral à apoptose e uma marcadora da agressividade tumoral. Dohi em 2004 observou que a survivina é regulada pelas mitocôndrias e Michelakis em 2007 observou que a survivina se correlaciona positivamente com o grau de malignidade dos tumores por ele estudados: glioblastoma, câncer de mama e câncer de pulmão.
Pu em 2003 mostrou que o NFAT1 (fator nuclear de ativação dos linfócitos T) inibe a apoptose em células do miocárdio e Rossow em 2004 mostrou que o NFAT1 inibe a expressão do Kv1,5 no infarto do miocárdio o que protege as células do coração.
O aumento do cálcio intracelular ativa a calcineurina a qual defosforila o NFAT, permitindo sua translocação para o núcleo onde ele regula a transcrição gênica (Macian-2006). Michelakis ,mostrou que o DCA induzindo a ativação do Kv1,5 , hiperpolariza a membrana citoplasmática , inibe os canais de Ca++ dependentes de voltagem, diminui o Ca++ intracelular culminando na inibição do NFAT1 e aumentando ainda mais a expressão do Kv1,5. Todos esses fatores favorecem a apoptose das células malignas.
O DCA induz apoptose dependente das mitocôndrias e diminui a proliferação celular maligna in vitro
O DCA aumenta a expressão da anexina, ativa as caspases 3 e 9 e aumenta em 6 vezes a apoptose. Ao eliminar as células altamente proliferativas pela indução de apoptose e ao diminuir a concentração intracelular de Ca++ , o DCA diminui drasticamente os índices de proliferação maligna.
A glicólise anaeróbia não é apenas um epifenômeno no câncer
Michelakis mostrou em 2007 que a “disfunção” mitocondrial sugerida por Warburg em 1926 é reversível. Quando o metabolismo passa da fosforilação oxidativa mitocondrial , rica em energia, para a glicóliose anaeróbia, pobre em energia, as células malignas adquirem resistência à apoptose o que é um poderoso mecanismo de sobrevivência celular. O autor mostrou que revertendo o fenótipo de Warburg para fosforilação oxidativa as células malignas ficam novamente vulneráveis, pois a apoptose é facilitada e ocorre diminuição da proliferação celular maligna. Nas 3 linhagens de células cancerosas estudadas, câncer de pulmão , câncer de mama e glioblastoma , Michelakis encontrou grande negatividade ou hiperpolarização do potencial da membrana mitocondrial. Chen em 1988, já havia demonstrado em mais de 200 carcinomas a presença de hiperpolarização da membrana mitocondrial quando comparada com células normais da mesma linhagem.
Desta forma devemos considerar a hiperpolarização da membrana mitocondrial como fenômeno chave e típico da maioria das células malignas: fenótipo de Michelakis. Qualquer droga que reverta a hiperpolarização mitocondrial facilitará a apoptose e diminuirá a proliferação celular.
O DCA induz apoptose e diminui o crescimento tumoral in vivo
Em ratos atímicos foram implantados no subcutâneo células A549 do tumor de pulmão de células não pequenas. Os ratos tiveram acesso livremente à água com ou sem DCA. O consumo de DCA variou de 50-100 mg/Kg/dia que é a dose empregada em clínica no tratamento da acidose lática.Vinte e um ratos foram divididos em três grupos e seguidos por 5 semanas:
a- controles não tratados (n=5) ,
b- DCA-prevenção (n=8) que receberam o DCA antes da implantação do tumor
c- DCA-tratamento (n=8) que receberam o DCA 2 semanas após a implantação do tumor por 3 ou mais semanas.
Os ratos não tratados desenvolveram o tumor rapidamente com um aumento exponencial de crescimento. Os grupos b e c , que receberam o DCA apresentaram significante diminuição do tamanho tumoral verificada na necropsia. A diminuição do crescimento do tumor se associou com intensa apoptose e diminuição da proliferação celular. Houve aumento da expressão dos canais Kv1,5 e diminuição da expressão da survivina.
Em outro grupo agora com 18 ratos verificou-se se o DCA era realmente eficaz em tumores mais avançados e foram seguidos por 12 semanas:
A- controles não tratados ( n=6)
B- prevenção –DCA (n=6) : O DCA foi administrado no momento da inoculação do tumor
C- tratamento – DCA (n=6) : O DCA foi administrado dez semanas após a inoculação do tumor por 12 semanas.
No grupo B os tumores foram significantemente menores que no grupo A em todos os ratos.
No grupo C o DCA inibiu o crescimento tumoral imediatamente , encontrando-se significante diminuição já na primeira semana de tratamento. Não se observou nenhum efeito tóxico , avaliado por várias dosagens bioquímicas: hemoglobina, creatinina, TGP , etc.
Conclusão
Em geral as células malignas podem morrer de duas formas: necrose e apoptose.
Na necrose as células morrem fazendo muito alarde isto é, provocando inflamação, inchaço, congestão e dor. É assim que funciona a quimioterapia e a radioterapia acrescendo que estes métodos não distinguem células malignas de células benignas (Felippe JJ – 1990 – 1994-2000 -2001-2002-2003-2004-2005-2006-2007).
Na apoptose as células morrem de um modo discreto, sem provocar inflamação, inchaço, congestão ou dor. É assim que funciona o dicloroacetato de sódio (DCA) e muito importante somente as células malignas são atingidas.
Infelizmente, o DCA é órfão de pai, de mãe e de padrinhos, isto é, constitui-se em droga órfã, onde nenhum laboratório tem interesse em investir. Desta forma não esperamos para o futuro grandes trabalhos financiados pela Indústria aqueles com conflito de interesses não declarados. Esperamos sim, alguns trabalhos com pouca casuística feitos por pesquisadores sérios, corajosos e solitários.
O importante é que dispomos de mais um medicamento que pode ser utilizado imediatamente em clínica, porque já foi testado e empregado em vários tipos de patologias nos últimos 30 anos.
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