Doença de Alzheimer : Novas Perspectivas
de Tratamento – ATP e Fosfoetanolamina
José de Felippe Júnior
Introdução | Conclusão|
Bibliografia
Introdução
A Doença de Alzheimer está se tornando mais freqüente
à medida que aumenta a sobrevida média da população
afetando de 5 a 15% das pessoas com idade superior a 65 anos (Katzman
– 1986). Com o aumento da idade ocorre um declínio progressivo
da função de vários orgãos sendo o mais sensível
os neurônios do cérebro. Um pequena proporção
de pacientes possuem uma forma geneticamente transmitida por herança
autossômica dominante, porém a maioria apresenta a doença
de uma forma esporádica e sem relação com a tranmissão
genética. O principal sintoma é a perda progressiva da memória.
As alterações patológicas encontradas na doença
de Alzheimer envolvem o hipocampus e o neocortex, especialmente dos lobos
temporais onde se encontram as lesões características da
doença, isto é, as placas neuríticas beta-amiloides
e o emaranhado neurofibrilar.
Muito se tem feito em pesquisas e tratamentos, porém até
o presente momento não se encontrou a terapêutica definitiva.
Entretanto, os autores têm descrito na literatura médica
indexada e de bom nível importantes elementos da fisiopatologia
desta doença que nos permitem pensar que estamos muito perto de
alcançarmos uma estratégia terapêutica eficaz. Para
manterem as suas funções as células do nosso organismo
devem produzir energia: ATP (trifosfato de adenosina). Sem energia a célula
não consegue sintetizar hormônios, enzimas e neurotransmissores
como a acetilcolina de capital importância na memória, na
concentração e em muitas outras funções cerebrais.
As duas vias principais de geração de ATP são a glicólise
anaeróbia (citoplasma) e a fosforilação oxidativa
(mitocondria), sendo esta última 17 vezes mais eficaz na geração
de energia. As mitocondrias são as organelas que produzem a maior
parte dos ATP necessários para as função normal do
neurônio e para a sua sobrevivência. Recentemente vários
autores constataram importantes alterações da fosforilação
oxidativa em pacientes portadores de doença de Alzheimer. Parker
demonstrou deficiência do complexo IV da cadeia respiratória
mitocondrial ; Zubenko demonstrou deficiência dos complexos II e
III e Sorbi verificou diminuição da enzima piruvato-dehidrogenase
no cérebro de pacientes com Alzheimer.
O significado destas alterações mitocondriais devem ser
interpretadas com cautela porque não sabemos ao certo se elas são
a causa ou o efeito da doença. Entretanto, na fase inicial da doença
o que predomina no cérebro destes pacientes é uma importante
alteração do metabolismo energético ( Duara –
1993). De fato, à medida que a doença progride Mielke observou
em estudos seqüenciais com tomografia por emissão de positrons,
uma diminuição sistemática da utilização
de oxigênio e glicose e Friedland observou um precoce defeito do
metabolismo da glicose em regiões dos lobos temporal e parietal
que são justamente os locais onde se encontram as placas neuríticas.
Muitos pesquisadores encontraram evidências diretas de defeitos
da cadeia respiratória mitocondrial na doença de Alzheimer.
Preparados mitocondriais de cérebros doentes demonstraram uma redução
de 40% na atividade do Complexo I e 53% de redução da atividade
do Complexo IV o chamado complexo citocromo oxidase ( Parker-1990 e Parker
– 1995 ). Estas reduções de atividade dos componentes
da cadeia respiratória mitocondrial são predominantes justamente
nas regiões temporais e parietais ( Kish – 1992 , Mutisya
– 1994 e Chagnon – 1995 ). Estudos histoquímicos confirmaram
o defeito da atividade do complexo IV ( Simonian – 1993). Existem
evidências epidemiológicas que sugerem maior incidência
de Alzheimer nas mães do que nos pais dos pacientes com Alzheimer
, sugerindo o papel da herança materna de mitocondrias com mutação
de DNA. ( Edland – 1996).
Fosfoetanolamina e Etanolamina na Doença de Alzheimer
A fosfoetanolamina (PEA) e a etanolamina (EA) estão presentes no
cérebro normal em grandes quantidades (Perry-1971). Essas aminas
estão envolvidas no metabolismo dos fosfolípides e são
precursoras da fosfatidiletanolamina e da fosfatidilcolina , dois dos
quatro fosfolípides que compõe a membrana celular (Pocellati
–1971 e Corazzi – 1986). Foi demonstrado por vários
pesquisadores que a PEA e a EA são liberadas por despolarização
em algumas circunstâncias, embora não se saiba qual é
o verdadeiro significado fisiológico desta constatação
(Wolfsensberger – 1982, Maire – 1984, Corazzi-1986 e Pershak
– 1986 ).
Em 10 pacientes com idade média de 76,6 anos com doença
de Alzheimer confirmadas neuropatologicamente, foram dosados a fosfoetanolamina
e a etanolamina nas regiões de predileção da doença,
utilizando-se a cromatografia de alta performance com detecção
eletroquímica. Os dados foram comparados com cérebros normais
da mesma idade. Os autores constataram que os níveis de fosfoetanolamina
se encontravam 64% reduzidos no cortex temporal (área 21 de Brodmann),
48% no cortex frontal (área 9 de Brodmann) e 40% no hipocampus.
Estas dados foram estatisticamente significantes quando comparados com
cérebros normais da mesma idade. Os níveis de etanolamina
se encontravam 33% reduzidos no cortex parietal ( área 3-1-2 de
Brodmann) e 12% no cortex occipital (área 17 de Brodmann) porém
, esses dados não alcançaram significância estatística
(Ellison –1987). As funções precisas da fosfoetanolamina
(PEA) e da etanolamina (EA) no tecido nervoso são desconhecidas.
No coelho a EA entra na retina por transporte ativo (Pu - 1984) ; no pombo
ela é liberada por estimulação do nervo óptico
(Wolfsensberger - 1982) e no rato é liberada nos núcleos
da ponte por estimulação elétrica.(Pershak - 1986).A
etanolamina modula respostas ao ácido gama-aminobutírico
e à glutamina. em pombos (Wolfsenberger – 1982). No coelho
a PEA é liberada do hipocampus após despolarização
com potássio, glutamato ou metil-aspartato. A liberação
de PEA está sempre associada com o aumento da concentração
de taurina. A interação entre taurina e PEA foi confirmada
quando se mostrou que a taurina exógena e os bloqueadores da recaptação
de taurina aumentam os níveis de PEA. O metil-aspartato induz a
liberação de taurina e PEA dos locais dendrosomaticos, mas
não dos sinaptosomáticos (Lehmann – 1984 e 1985).
A EA se converte em PEA no sistema nervoso sob a ação da
etanolamina-kinase. No próximo passo, através da via de
Kennedy, forma-se a fosfatidiletanolamina, um dos quatro fosfolípides
componentes da membrana celular (Pu - 1984). Uma segunda via envolve o
cálcio estimulando a incorporação de serina, etanolamina
e colina nos fosfolípides endógenos já existentes,
em reações que não precisam de ATP (Porcellati –
1971). Lembremos que a colina é uma trimetil-etanolamina que se
transforma por acetilação em acetilcolina o principal neurotransmissor
envolvido na memória. Recentemente foi descrito na substância
branca do cérebro de pacientes com Alzheimer uma redução
do conteúdo de mielina (Brun – 1986 e Malone - 1985). No
cortex destes pacientes encontra-se aumento de fosfomonoesteres e fosfodiesteres
e anormalidades envolvendo o glicerol 3-fosforilcolina.(Barany –
1985, Pettigrew – 1986 e Miatto - 1986) , porém, estas anormalidades
não estão associadas com o aumento da atividade da fosfolipase
D , que na verdade está diminuída no Alzheimer (Kanfer -
1986). É possível que a PEA e a EA poderiam influenciar
vias de controle da produção de colina e de fosfolípides
na doença de Alzheimer (Maire - 1984).
A diminuição da PEA e da EA no Alzheimer pode interferir
com a eficácia das sinapses e com a função da membrana
celular neuronal. Por outro lado a PEA está envolvida com a fosforilação
oxidativa mitocondrial. Quantidades ideais de PEA no organismo geram fosfatidiletanolamina
e fosfatidilcolina componentes essenciais da membrana celular e mitocondrial.
Segundo o trabalho de Ellison, são as regiões do cortex
temporal com maiores reduções de PEA e EA, onde ocorrem
as maiores alterações patológicas, evidenciando o
importante papel destas duas aminas na fisiopatologia do Alzheimer. Outros
autores também constataram marcante redução de PEA
e EA no cortex temporal (Mann-1985).
Conclusão
Na doença de Alzheimer as evidências fisiopatológicas
apontam para um defeito da fosforilação oxidativa mitocondrial
com diminuição da produção de ATP nos locais
mais afetados pela doença e também uma diminuição
de fosfoetanolamina e etanolamina nestas regiões, substâncias
que fazem parte da membrana celular e da membrana mitocondrial e que estão
diretamente envolvidas com a produção de ATP via cadeia
respiratória mitocondrial.
Atualmente está em andamento trabalho piloto empregando a fosfoetanolamina
e medidas nutricionais para aumentar a eficácia da fosforilação
oxidativa ( sopa mitocondrial: riboflavina, nicotinamida, coenzimaQ10,
vitamina C , vitamina K3, l-carnitina, l-taurina, magnésio ) com
resultado parcial muito animador.
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