Nosso principal objetivo é elaborar " PROTOCOLOS DE CONSENSO " das estratégias terapêuticas, com a finalidade de " REGULAMENTAÇÃO " no Conselho Federal de Medicina ou nos Conselhos de Classe Competentes.
 

A Hipoglicemia Induz Citotoxicidade no Carcinoma de Mama Resistente à Quimioterapia

 


Dr. José de Felippe Junior



Hipoglicemia Aguda Provoca Diminuição da Proliferação Celular Maligna e Aumento da Apoptose , via Estresse Oxidativo Metabólico

A resistência tumoral aos agentes quimioterápicos é um sério problema na clínica oncológica e ao lado das metástases é a responsável pela maioria das falhas terapêuticas. Vários são os mecanismos aventados para explicar tal resistência, entretanto um talentoso pesquisador chinês observou que somente a privação de glicose em meio de cultura é capaz de provocar drástica citotoxicidade das células do carcinoma de mama resistente a múltiplas drogas ( MCF-7 / ADR ) ( Lee,1997). Lee observou que a privação de glicose provoca citotoxicidade celular com aumento da morte da célula maligna por apoptose, via estresse oxidativo metabólico. Quando colocadas em um meio ambiente livre de glicose a sobrevida das células do carcinoma de mama resistentes a múltiplas drogas diminui exponencialmente com o tempo e em 8 horas quase todas células malignas estão mortas. A eletroforese em gel e as fotomicrografias indicam que a morte celular maligna foi devida à apoptose, caracterizada por protrusões da membrana celular citoplasmática e fragmentação do DNA ( Baxter e Lavin-1992 , Wei - 1994). A apoptose é um processo ativo dependente de energia, de auto destruição celular, que envolve desintegração do citoplasma, protuberâncias da membrana celular, condensação da cromatina nuclear e ás vezes clivagem do DNA internucleossomal ( Kerr - 1994 ). Entretanto , qual seria o mecanismo da citotoxicidade e apoptose durante a falta de glicose? A resposta é : estresse oxidativo metabólico intrínsico da célula tumoral


Mecanismos de aumento da citotoxicidade e apoptose durante a privação de glicose

Continuando sua pesquisa Lee mostrou que duas a quatro horas de privação de glicose provoca estresse oxidativo evidenciado pelo aumento de 3 vezes nos níveis de glutationa oxidada (GSSG) e no aumento de 3 vezes na produção de hidroperoxidos , ambos substâncias oxidantes ( Lee-1998). Por mais de 80 anos sabe-se que as células que sofreram transformação neoplásica (células cancerosas) apresentam metabolismo alterado quando comparadas com as células que não sofreram transformação (células normais). A alteração metabólica mais importante e quase universal envolve o metabolismo da glicose com a perda do acoplamento entre a glicólise anaeróbia (GAN) e a fosforilação oxidativa (FO) ( Warburg –1926 ). Em geral as células cancerosas exibem aumento da GAN e do ciclo das pentoses juntamente com a diminuição da FO e particularmente nas células do carcinoma de mama resistente a múltiplas drogas, a GAN está aumentada 3 vezes em relação ao correspondente carcinoma não resistente. Ao entrar na célula a glicose é fosforilada na posição 6 pela ação da hexokinase e se transforma em glicose 6-fosfato. A partir deste ponto ela pode caminhar por duas vias : glicólise anaeróbia e ciclo das pentoses. A glicólise forma piruvato e o ciclo das pentoses, NADPH. O piruvato, além de substrato para a formação de acetil-CoA que entra como metabolito energético no ciclo de Krebs é um potente varredor de peroxido de hidrogênio e outros hidroperoxidos ( Nath – 1995 ). O NADPH é um potente redutor equivalente ao GSH (glutationa reduzida) e participa também na decomposição do peroxido de hidrogênio e dos hidroperoxidos orgânicos ( Tuttle – 1992 ). Assim sendo, a glicose em seu metabolismo, além de produzir energia, gera substâncias redutoras que promovem a desintoxicação dos hidroperóxidos formados como subprodutos da FO . De fato o aumento da concentração de glicose em culturas de células protege tais células da citotoxicidade induzida pelo peroxido de hidrogênio ( Averill-Bates - 1994 , Przybytkowski - 1996 ). A partir da glicose, durante o processo metabólico se produz continuamente via glicólise anaeróbia substancias redutoras, o NADPH e o piruvato e via fosforilação oxidativa substâncias oxidantes, o radical superóxido, o peroxido de hidrogênio e o radical hidroxila e assim sendo o equilíbrio redox é mantido. Na privação de glicose diminui a produção de redutores e se mantém a produção de oxidantes levando o equilíbrio redox tender para a oxidação. isto é o estresse oxidativo. Os eventos acima já foram provados. Blackburn em 1999 mostrou que durante a privação de glicose os níveis de pro-oxidantes aumentam imediatamente, sugerindo que os hidroperoxidos estão sendo continuamente produzidos no processo metabólico e que a decomposição destes pro-oxidantes está comprometida na ausência de glicose, porque diminuem a produção de NADPH e de piruvato. Esta produção ininterrupta de pro-oxidantes ocorre continuamente na cadeia de transporte de elétrons da mitocondria e na ausência de glicose os ácidos graxos e os aminoácidos são substratos alternativos para o ciclo de Krebs, produzindo NADH e FADH2 como fonte de elétrons para a geração de ATP mitocondrial. O oxigênio é o aceptor final dos elétrons produzindo H2O na redução completa. Entretanto, quando a redução é incompleta formam-se as espécies reativas tóxicas do oxigênio: radical superoxido, peroxido de hidrogênio e o radical hidroxila, poderosos oxidantes. O aumento dos níveis de pro-oxidantes durante a privação de glicose causa estresse oxidativo e citotoxicidade, evidenciado pelo acúmulo de GSSG (glutationa oxidada) e o aumento da morte celular clonogênica. Vários trabalhos mostram que o aumento do GSSG, independente da causa que o motivou, diminui a proliferação celular maligna e aumenta a apoptose mesmo na presença de glicose, isto é , em condições diferentes das que estamos escrevendo ( Baker – 1937 , Arrik – 1982 , Meister – 1991 e 1995 , Hall – 1999 ). Esta é a razão de em clínica utilizarmos oxidantes por via oral e via intravenosa, pois assim procedendo estaremos aumentando os níveis intracelulares de GSSG o qual promove a diminuição da proliferação celular e o aumento da apoptose. Aumentamos a eficácia do processo de morte celular maligna com o emprego da hipertermia por radio freqüência, imediatamente após a infusão intravenosa de hidroperóxidos (Felippe – 2002 – 2003 - 2004 , Lord-Fontaine – 1999 ).Blackburn em 1999 mostra elegantemente que a privação de glicose nas células MCF – 7 / ADR provoca ativação da Lyn kinase ( Lyn ), c-Jun N-terminal kinase 1 ( JNK1 ) e aumenta a expressão do bFGF ( fator de crescimento básico dos fibroblastos e da c-Myc mRNA. A privação de glicose ao mesmo tempo provoca o aumento dos níveis intracelulares de glutationa oxidada ( GSSG ) e de pro-oxidantes ( hidroperoxidos ) provocando estresse oxidativo na célula tumoral. O autor mostrou também que a adição de N-acetilcisteina inibe o estresse oxidativo e consequentemente inibe a ativação dos fatores acima descritos. A supressão do acúmulo de GSSG e da produção de pro-oxidantes com o uso deste potente antioxidante tiolico, indica o papel crucial do estresse oxidativo no processo. Blackburn e Spitz ficaram com o mérito (Lee como colaborador) de terem extendido o estudo para outras linhagens tumorais : células HT29 do carcinoma de colon humano e as células IMR90 de fibroblastos humanos transformados pelo vírus SV40. Os autores empregando a mesma técnica constataram que esses dois tipos de células malignas reagem de modo semelhante às célula do carcinoma de mama humano multiresistente , abrindo as portas para fazermos a hipótese que o fenomeno descrito possa ser mais abrangente ( Blackburn – 1999 , Spitz – 2000 ). É importante frisar que na falta de glicose as células transformadas (malignas) são incapazes de manter a glutationa recém sintetizada, na forma reduzida (GSH) acontecendo o acúmulo progressivo de GSSG, a glutationa oxidada. O mesmo não acontece nas células normais que são muito mais resistentes ao estresse oxidativo. Assim a privação de glicose induz estresse oxidativo nas células transformadas, mas não nas células normais, isto é , este processo somente é citotoxico para as células malignas.

Mecanismos moleculares dos efeitos do estresse oxidativo sobre a célula maligna


1- MAPK

Lee em 1988 observou que em 3 minutos de privação de glicose já se observa aumento da atividade da MAPK ( mitogen-activated protein kinase ) o qual assim permanece por 3 horas. Já era conhecido que este grupo de proteínas são ativadas pelo estresse oxidativo. Lee observou que a inclusão de N-acetilcisteina poderoso antioxidande impede o aumento de MAPK , mostrando mais uma vez o papel do estresse oxidativo na ativação deste importante transdutor de sinal. A MAPK também conhecida como “proteino kinases reguladas pelo extracelular” ( ERKs ) são kinases serina / treoninas. Nos mamíferos conhecemos 3 MAPK : ERK1 , ERK2 e ERK3 ( Boulton – 1995 ). A via MAPK é ativada por vários fatores de crescimento ( Sturgill – 1991 , Oliver – 1995 ), por ácidos graxos polinsaturados ( Hii – 1995 , Rao – 1995 ) e por alterações das reações de oxido / redução intracelular ( Fialkow – 1994 , Chen – 1995 ). A ativação da MAPK envolve sinais extracelulares incluindo oxidantes que estimulam a formação de Ras, GTP ( Boguski – 1993 , Lander – 1995 ).O GTP ligado à proteína Ras liga-se à Raf kinase e inicia a cascata de proteína kinase que leva à ativação dos MAPKs ( Merrall – 1993 , Vaillancourt – 1994 ). O MAPK ativo se desloca para o núcleo ( Zheng – 1994 ) e fosforila substratos nucleares incluindo fatores de transcrição redox-regulados que se acredita estarem envolvidos com a resposta celular ao estresse oxidativo ( Ex.: Elk-1 , c-myc e Fos ) ( Oliver - 1995 , Pulverer – 1991 , Crawford – 1996 ). Desta forma a via MAPK é ativada em resposta ao estresse oxidativo e está implicada nas respostas celulares a esse estresse e possivelmente seja o que está acontecendo nas células do carcinoma de mama resistente a múltiplas drogas ( Lee- 1998).

2- c-myc

Lee observou aumento de até 5 vezes nos níveis de c-myc nas células com privação de glicose, o que mostra o seu papel na apoptose das células MCF-7 / ADR. A inclusão da proteina c-myc no meio de cultura protege as células da morte apoptótica confirmando o mecanismo de apoptose. A inclusão de antioxidantes tiois tipo N-acetilcisteina impede o aumento de c-myc , mostrando que o estresse oxidativo está diretamenrte envolvido na ativação do c-myc ( Lee – 1997 ). Um sinal de transdução incompatível pode desencadear a morte por apoptose ( Evans- 1992). Sabe-se que o c-myc é um gene de resposta precoce associado com a proliferação celular ( Heikkila - 1987 , Loke - 1988). A expressão do c-myc é induzida rapidamente pela adição de soro a células quiescentes e sua expressão é seguida por mitose (proliferação celular). Entretanto, em condições de restrição de crescimento a expressão desregulada do c-myc facilita a apoptose em linhagens de células de mamíferos ( Evan -1992 , Loke - 1988) e é justamente o que acontece quando as células são incubadas em meio com falta de glicose ( meio de restrição nutricional). Durante o processo de privação de glicose ocorre aumento dos níveis da proteina c-myc, sugerindo que a apoptose pode ser mediada por esta proteina ( Evan - 1992). Sabe-se também que a morte celular por apoptose pode ser induzida não somente pelo aumento, mas por desregulação da expressão da c-myc ( Evan - 1992 , Shi - 1992). Como vimos Lee observou aumento de 5 vezes na c-myc.

3- p53

Possivelmente a indução da proteína p53 faça parte da resposta celular de ativação do c-myc , durante a falta de glicose ( Hermeking – 1994). Hermeking já havia observado que a ativação do c-myc aumenta a proteína p53 em outras condições. A indução do p53 funciona como uma espécie de mecanismo de segurança para previnir a proliferação celular desenfreada assegurando a morte celular por apoptose via ativação do c-myc. Estudos recentes mostram que a indução do p53 se associa ao aumento do bax mRNA e sua proteína correspondente : bax ( Miyashita – 1995 ). Este aumento da expressão do gene bax é acompanhado por diminuição simultânea dos níveis de bcl-2 mRNA e sua proteína bcl-2 o que permita que a apoptose continue existindo. Lembrar que o aumento da bcl-2 protege a célula maligna da morte por apoptose e mantém a sua sobrevivência ( Vaux – 1988 ) .

4- bcl-2

Sabe-se que o papel funcional da proteína bcl-2, talvez o único, é bloquear a apoptose e proteger a célula maligna deste tipo de morte (Korsmeyer – 1992). Bissonnetti em 1992 já havia mostrado que a morte por apoptose induzida pela falta de glicose em células malignas é inibida pelo bcl-2. Lee mostrou em meio de cultura livre de glicose que os níveis de bcl-2 não se alteram em 2 a 5 horas e que em 6 horas eles realmente sofrem uma queda de 50 % em relação à concentração inicial. É importante salientar que alguns autores já haviam percebido que a falta de glicose no meio de cultura ou a inibição da captação de glicose em alguns tipos de células aumenta marcantemente a velocidade da morte celular por apoptose ( Zhong - 1993 , Rabizadeh- 1993 , Kan - 1994 ) e que uma fonte alternativa de energia como a glutamina ou o glutamato pode suprimir a apoptose ( Kan - 1994). Coube a Lee mostrar a importância que pode ter estes experimentos no carcinoma de mama multiresistente aos quimioterápicos.

5- Lyn kinase  

Lyn kinase ( Lyn ) é membro da família src de tirosina kinases envolvidas em vias de transdução de sinais , incluindo a oxidação e as radiações ionizantes. Lyn está envolvido em vias que ativam o fator de transcrição AP-1, figura central que regula o bFGF ( fator de crescimento básico do fibroblasto ) e o VEGF (fator de crescimento do endotélio vascular) e a conseqüente neo vascularização tumoral. Lyn também está envolvida na progressão do ciclo celular, assim como na indução de apoptose em células muito sensíveis à radiação ionizante. A exposição de adenocarcinoma humano resistente ao quimioterápicco adriamicina, à radiação ionizante induz a expressão do c-Jun, c-Fos, bFGF e ativa o fator AP1 ( Lee – 1995 ) , como mecanismo de sobrevivência das células malignas ( Felippe – 2004). Esses fatores são responsáveis pelas falhas no tratamento de vários tipos de câncer na clínica oncológica. Estas mesmas células expostas à privação de glicose também exibem aumentos similares de bFGF e da expressão do gene c-myc, assim como a ativação do Lyn, JNK1 e ERK1/ERK2 ( Blackburn – 1999 ). Todos esses fatores são de efeito final tardio, razão da necessidade da hipertermia imediata e a manutenção da oxidação sistêmica por via oral ( Felippe – 2002 ).

RESUMO

PRIVAÇÃO DE GLICOSE / HIPOGLICEMIA AGUDA ......... provoca diminuição da Glicólise Anaeróbia e manutenção da Fosforilação Oxidativa ........ as quais provocam diminuição do NADPH e do Piruvato e manutenção do NADH e FADH2 mitocondrial com o consequente aumento de hidroperoxidos e do GSSG.........todos esses fatores culminam no ESTRESSE OXIDATIVO METABÓLICO

I- Efeitos Diretos ( imediato nas manifestações - minutos )

a - diminuição da proliferação celular maligna
b - aumento da morte celular maligna por apoptose
c - aumento da necrose celular maligna
d - diminuição da angiogenese tumoral
f - diminuição da geração de NF-kappaB
g - aumento da fluidez de membrana

Os efeitos imediatos aumentam a sensibilidade da célula tumoral à Hipertermia por Radio Freqüência. As células normais não são afetadas

II- Efeitos Indiretos ( tardio nas manifestações - dias )

a - aumento da proliferação celular maligna
b - diminuição da morte celular maligna por apoptose
c - diminuição da necrose celular maligna
d - aumento da angiogenese
e - aumento do NF-kappaB
f - diminuição da fluidez de membrana

Os efeitos tardios são direcionados para aumentar a angiogenese tumoral, aumentar a proliferação celular maligna e impedir a apoptose, como mecanismo de proteção e sobrevivência das células malignas. O emprego da Hipertermia por Radio Freqüência imediatamente após a Hipoglicemia e a manutenção da oxidação sistêmica pela administração de oxidantes por via oral impedem os efeitos tardios. As células normais não são afetadas.

Conclusão: Os diversos trabalhos descritos nesta revisão suportam com dados experimentais que a privação de glicose provoca aumento dos níveis de pro-oxidantes intracelulares (GSSG, hidroperoxidos e espécies reativas tóxicas do oxigênio) juntamente com a diminuição dos níveis de agentes redutores (NADPH e piruvato) desequilibrando a balança redox para a oxidação e provocando estresse oxidativo o qual desencadeia a ativação de uma série de vias de transdução de sinais que culmina na diminuição da proliferação celular e no aumento da morte celular maligna por apoptose. Estes eventos não se limitam ao carcinoma de mama humano resistente a múltiplas drogas, sendo considerado um fenômeno quase que universal do fenótipo maligno. E muito importante as células normais sendo mais resistentes ao estresse oxidativo, não sofrem efeitos colaterais.

“Não existem questões esgotadas e sim homens esgotados nas questões”

 Cajal            


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José de Felippe Junior

 

   

 

 

 

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